domingo, 17 de outubro de 2010

As lições dos mestres

Hoje refleti sobre um discurso de Darcy Ribeiro feito um mês antes de sua morte, na Associação Brasileira de Imprensa, por ocasião da decisão do governo de privatizar a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). Eis o discurso, além de um vídeo de FHC afirmando que quem mais lutou pelas privatizações em seu governo foi José Serra: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17051.

Darcy, em cadeira de rodas, disse a seus amigos, à época: “Vou ao ato na ABI pela Vale nem que seja carregado”. A leitura dessa frase me trouxe à mente um gesto parecido, de Sérgio Buarque de Holanda, um dos professores de Darcy Ribeiro na antiga Escola de Sociologia e Política de São Paulo: doente e com sérias dificuldades de locomoção, Sérgio fez questão de ir ao Colégio Sion no dia 10 de fevereiro de 1980 para participar da fundação do PT, o primeiro partido político brasileiro criado por iniciativa popular.

O gesto de Sérgio tem um significado simbólico muito forte: em Raízes do Brasil, publicado em 1936, ele argumentava que a forte urbanização pela qual nosso país passava, bem como a industrialização inerente a ela, iria resultar em uma mudança profunda de nossa organização social, da qual a classe operária surgiria como uma nova força política. O golpe de 64 foi uma tentativa de impedir o curso de um processo histórico a partir da velha fórmula que as elites sempre usaram para manter o povo sob seu domínio ao instaurar ditaduras: aumento dos direitos sociais em troca da redução dos direitos civis e políticos. Deu no que deu. A ditadura terminou e o processo seguiu seu curso com os trabalhadores fazendo greves e reivindicando direitos. Até aí nada de novo: greves e reivindicações eram comuns em São Paulo, pelo menos, desde a época da imigração italiana. A novidade é que a luta dos trabalhadores, no final da ditadura, estava se modificando: saindo de dentro da fábrica e indo para as ruas. Já não se tratavam mais de greves dentro das fábricas, mas de greves de toda uma categoria profissional unida (o que também já existia antes, mas a novidade é a politização crescente dos movimentos sindicais), ou até mesmo uma greve geral, como aquela que é considerada um marco do fim do regime militar.

À frente deste processo de unir os trabalhadores para juntos terem mais poder reivindicatório, estava o atual presidente Lula. A luta dos trabalhadores, antes restrita às negociações com o patronato, passou a ser também política: os trabalhadores precisavam ter seus interesses defendidos no congresso,  o que só seria possível através de um partido que os legitimasse como força política. E assim surgiu o PT.

Tratava-se, portanto, de uma novidade no Brasil, que atraiu diversos intelectuais, como Sérgio Buarque, Antonio Candido e Darcy Ribeiro, justamente por representar uma força política destinada a representar aqueles outrora excluídos da representação política. A reação das elites, que viu nisso uma ameaça a seus privilégios, não tardou a reagir, aproveitando-se da inspiração marxista que originou o PT para associá-lo aos comunistas comedores de criancinhas, assim como se faz hoje em dia nas capas da Veja.

É verdade que o PT daquela época, como toda força política nova, era caracterizado por um certo radicalismo ideólogico, fruto da própria inexperiência com o poder. Com o tempo, o PT foi conhecendo a diferença entre teoria e prática, aprendendo sobre a importância de fazer alianças e de respeitar os interesses de todos. É importante frisar que a inspiração marxista do partido não implica em comunismo, já que os estudos de Marx buscavam compreender o sistema capitalista, tendo as relações de trabalho como ponto central. Aliás, a queda da URSS aconteceu há muito tempo e não faz sentido apostar neste modelo hoje em dia. Muita gente não vê diferença entre direita e esquerda justamente por associar direita ao capitalismo e esquerda ao comunismo. Não é mais assim, a diferença básica, hoje em dia, é que a direita é mais apegada à manutenção das tradições, buscando fortalecer as grandes corporações para que elas aumentem sua produção, gerando receita para o governo, enquanto a esquerda defende a humanização do capitalismo, dando ao Estado um papel mais ativo na economia e buscando maneiras de assegurar que todos se beneficiem do crescimento econômico.

Essa nova realidade, no caso do Brasil, fez com que tanto a direita quanto a esquerda passassem a se preocupar em atrair investimentos externos, equilibrar as contas públicas e investir em infra-estrutura para permitir o aumento da atividade produtiva, responsável pela geração de empregos. A diferença é que a direita faz isso pensando exclusivamente em aumentar a receita do Estado para poder garantir a continuidade do crescimento econômico, enquanto a esquerda busca, também, garantir que esse crescimento beneficie a todos.

A questão das privatizações poderia ser irrelevante nos países onde as empresas nacionais possuem grande capacidade de investimento, mas não é o caso do Brasil: aqui, excetuando-se as estatais, ninguém pode investir muito no país, e por esse motivo todas as empresas privatizadas caíram nas mãos de estrangeiros, ainda que em muitos casos houvesse participação do capital nacional (Estou desconsiderando a privatização da Nossa Caixa, que é um exemplo interessantíssimo: enquanto o governo tucano de SP buscava se livrar de suas estatais, o governo federal petista tinha interesse em fortalecer o Banco do Brasil). A Vale caiu em mãos de empreiteiras nacionais, mas os altos investimentos exigidos resultaram na participação cada vez maior de investidores estrangeiros na empresa. Darcy Ribeiro tinha razão: privatizar é deixar nossas riquezas nas mãos de quem só se preocupa com seus próprios lucros e não tem consideração pelo povo brasileiro. Basta uma crise econômica qualquer para os gringos demitirem os funcionários de suas filiais no Brasil, agravando os efeitos dela por aqui. Basta a diretoria da empresa optar por priorizar investimentos em um outro país qualquer e podemos esquecer todos os investimentos prometidos para o Brasil.

A próxima empresa brasileira que os tucanos desejam privatizar é a Petrobrás, que o governo FHC estava desmembrando para vender. No caso do petróleo, a situação seria muito mais desastrosa, primeiro porque, no caso da Vale, a existência de grandes empreiteiras no país que demandam grandes quantidades de minério resultou em uma alta participação nacional na empresa, mas e no caso da Petrobrás, quem a compraria? Só os grupos estrangeiros se interessariam por ela.

E o que significaria uma privatização da Petrobrás? Os tucanos quebraram o monopólio da estatal na exploração e refino de petróleo argumentando que é ruim para o país deixar a exploração limitada à capacidade de invstimento de uma única empresa. O fato é que isso nunca foi problema, tanto é que o país se tornou auto-suficiente em petróleo e somente durante o governo FHC (por motivos óbvios) o investimento da Petrobrás foi aquém do necessário. Quantas refinarias os grupos estrangeiros construíram no Brasil? Eles podem construir, inclusive brigaram muito para obter esse direito, então porque não constróem? Se não fazem isso agora não há razão para crer que farão no futuro. Pior do que depender da capacidade de investimento de uma empresa estatal é depender da vontade de executivos estrangeiros que podem, a qualquer momento, reduzir drasticamente os investimentos no Brasil devido à descoberta de um novo campo de petróleo no Iraque, por exemplo.

Isso explica porque Darcy Ribeiro se posicionou contra a venda da Vale, e certamente estaria dizendo o mesmo com relação à Petrobrás. Aliás, outro momento interessante de seu discurso se refere à visão tucana de pensar exclusivamente em termos econômicos, esquecendo-se a importância eestratégica e social de tais decisões políticas. A privatização pode resultar em aumento dos investimentos ou mesmo dos lucros, mas a que custo? Será que a Vale, após ser privatizada, passou a dar maior importância à preservação do meio-ambiente? Será que respeita todos os direitos trabalhistas de seus funcionários? Será que oferece treinamento adequado a eles com relação à segurança? Uma empresa privada pode até fazer isso, mas uma pública faz com certeza. Por fim, fica a questão primordial, já discutida: vale a pena dar a outros a responsabilidade de gerenciar recursos estratégicos?

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Coletânea de leituras recomendadas

Estarei viajando nos próximos dias e o blog não será atualizado. Contudo, deixo aqui textos que valem a pena. Alguns são extensos, mas abrangentes e altamente críticos.
Este faz uma análise profunda do cenário do segundo-turno com base nos novos papéis da esquerda e da direita no mundo contemporâneo, e de sua relação com os grupos sociais que as representam e legitimam.

Resposta de Sérgio Gabrielli às críticas de David Zylbersztein.
Descubra quem é Zylbersztein.

Luis Nassif, sobre a estratégia tucana de incitar o medo e o ódio como forma de induzir o eleitor a votar em um candidato que não apresenta propostas e vê nos ataques maciços à adversária uma forma de despolitizar a eleição.

Com relação a essa disseminação de um ódio sem fundamento, baseado em preconceitos do passado, vale a pena ler o meu artigo sobre o homem cordial (http://vermelhosobreazul.blogspot.com/2010/10/o-brasileiro-um-homem-cordial.html), pois o que vemos é justamente isso: na falta de propostas adequadas aos novos anseios da sociedade brasileira, os tucanos apelam para a velha cordialidade brasileira, incitando o ódio a partir da criação de esterótipos para Dilma e o PT e da divulgação de boatos através da mídia e da internet.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Estado forte ou Estado fraco?

Creio que a diferença fundamental entre as visões políticas de PT e PSDB seja a visão que eles têm da administração pública: enquanto os tucanos seguem a linha neoliberal, buscando enfraquecer o Estado e deixando tudo nas mãos do capital privado, o PT acredita em um estado forte que promova o desenvolvimento do país em todos os setores.

A questão é que, historicamente, o Brasil sempre dependeu de investimentos públicos para se desenvolver. As primeiras indústrias privadas brasileiras surgiam para atender a demandas do governo por certos produtos. Já as empresas estatais, foram criadas pelo próprio governo. Some-se a isso a proibição do governo português quanto ao desenvolvimento de atividade econômica significativa no Brasil: tudo tinha que ser importado. A sociedade escravocrata, na qual só os escravos trabalhavam, não nos deixou somente a mancha do racismo, mas também uma visão depreciativa do trabalho. Enquanto isso, nos EUA, a sociedade, seguidora da teologia calvinista, que prega o trabalho como uma forma do homem se redimir com Deus, criou um espírito empreendedor jamais visto antes. Conseqüência: a maioria das grandes empresas da atualidade têm sua matriz lá.

O brasileiro, como se vê, não tem um espírito empreendedor: monta uma padaria no bairro onde mora porque não há outra por perto, o lucro é garantido. Mesmo os pequenos empresários dificilmente pensam em expandir seus negócios, basta conseguir sustentar sua família e pronto. Um bom exemplo disso é constatar a realidade dos universitários brasileiros, todos sonhando em trabalhar no serviço público ou em multinacionais. Ao contrário de seus colegas estadunidenses que pensam em abrir o próprio negócio e ganhar dinheiro oferencendo algum serviço diferenciado ou desenvolvendo alguma tecnologia inovadora.

O modelo econômico que o PSDB quer implantar no Brasil é, portanto, inadequado à realidade nacional. Somos um país importador de tecnologia e as empresas estrangeiras se instalam aqui interessadas apenas em ganhar mercado e conseguir mão-de-obra e matéria-prima mais baratas. O empresário brasileiro não busca novas oportunidades de agregar valor a seu produto. Exemplo: prefere exportar café em grãos a investir em beneficiamento e exportá-lo em pó. O gringo ganha dinheiro transformando o grão em pó.

Para um país ser forte e competitivo é preciso, antes de mais nada, ter tecnologia própria, sendo que no Brasil quase todos os investimentos em pesquisa são financiados pelo governo. Qual país conseguiu se tornar competitivo no mercado internacional sem ter tecnologia própria? A Embraer e a Petrobrás, as principais transnacionais brasileiras, são empresas que possuem tecnologia de ponta desenvolvida por elas mesmas, senão teriam tido o mesmo destino da Gurgel.

As privatizações feitas pelo PSDB trouxeram qual benefício para o país? Os orelhões da Telesp funcionavam muito bem. Raramente a ligação caía. Agora uso os da Telefonica e a ligação cai sempre. Qualquer orelhão da Unicamp é a prova do que digo. A distribuição de energia elétrica também caiu muito em termos de qualidade. Quando a CPFL era pública o fornecimento de energia elétrica só era interrompido quando acontecia algo muito sério, como queda de poste. Agora falta energia elétrica com muito mais frequencia: meu bairro tem uns dois blecautes demorados por ano, sem contar que quase toda semana a luz dá uma piscadinha ou fico alguns minutos sem eletricidade em casa. Será que o orelhôes da Telefonica na Espanha são ruins como os brasileiros? Será que em outros países onde o fornecimento de energia elétrica é privado há tanta queda de energia? Esse tipo de modelo pode se adequar bem à realidade de outros países, mas não à brasileira.

Além disso, outra questão a ser considerada é: por que enfraquecer o Estado? Como vimos, impedir o Estado Brasileiro de promover o desenvolvimento econômico do país equivale a colocar todas as nossas riquezas e serviços fundamentais inclusive para a segurança nacional nas mãos de estrangeiros interessados apenas em se apoder de tudo e ficar com o dinheiro para eles. Quando não tiver mais nada eles vão embora e deixam o povo brasileiro sem condições de se desenvolver. É a mesma lógica que nos colonizou: o português chegava aqui interessado em explorar as riquezas do Brasil para ter uma vida luxuosa na Europa. Vamos aceitar uma nova colonização?

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Rapidinhas

Eis a nota do Conselho Federal de Psicologia sobre a atitude antidemocrática de O Estado de S. Paulo, que demitiu a colunista somente porque ela se manifestou de maneira contrária à opinião do jornal.


Um bom exemplo de hipocrisia: a turma do Serra, agora empenhada em combater a homossexualidade e o aborto, sempre esteve do outro lado. Serra, quando ministro da saúde, assinou a primeira lei brasileira a permitir aborto, que, aliás, foi de autoria de uma senadora do PSDB (suplente de Serra no senado que assumiu o lugar dele quando este abandonou o cargo para ser ministro) e assinado, também, por FHC. Eis o que disse, à época, o Padre Léo da Canção Nova: http://www.youtube.com/watch?v=tXTMkA2eGHc

E o vice de Serra, Índio da Costa, participa a Frente Parlamentar pela Cidadania GLBT, que trabalha pelos direitos dos homossexuais (http://www.aliadas.org.br/site/congresso/depsen2.php?tip=Deputado). Depois vem fazer discurso moralista na TV. Como é que ele agora vem dizer que pretende vetar a criminalização da homofobia? http://www.sidneyrezende.com/noticia/103729+gays+vao+protestar+contra+vice+de+jose+serra


Quer mais sobre aborto? Soninha Françoso, que admite ter feito aborto, é uma das coordenadoras da campanha de Serra. Será que ele vai bater nela?


E não tratemos mais de aborto, a CNBB não se posiciona a favor de Serra, como alguns boletins mentirosos divulgam por aí: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=8&id_noticia=138826

Liquidada a questão do aborto, que jamais deveria ter entrado na pauta da disputa presidencial e muito menos ter se tornado o tema principal, e vamos adiante, discutir questões estratégicas para o desenvolvimento do país.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Coisas para inglês ver.

Segundo José Murilo de Carvalho, a expressão “para inglês ver”, que significa lei ou promessa feita por mera formalidade, sem jamais ser efetivamente posta em prática, surgiu quando o governo brasileiro criou, em 1831, uma lei proibindo o tráfico negreiro para cumprir exigência de um tratado assinado com a Inglaterra, mas na prática a lei nunca saiu do papel, só servia para inglês ver.

Tal expressão é um retrato do Brasil, país onde o que importa são as formalidades. Já no período colonial era comum as famílias brasileiras viverem de forma humilde, por não terem condições de comprar certos alimentos, que custavam caro, e roupas novas. Mas essas mesmas famílias tinham belos vestidos caríssimos guardados para ocasiões especiais, e sempre que recebiam visita colocavam roupas chiques e ofereciam banquetes a autoridades da coroa e da igreja. Resultado: em Portugal se pensava que os brasileiros eram riquíssimos e daí resultava que o rei mandava aumentar os impostos, tornando os brasileiros ainda mais pobres.

Portanto, nossa cultura se baseia em formalidades. Importa a beca, não a cabeça. Por isso mesmo tanta gente grita que deveria haver vestibular para escolher os parlamentares ao invés de uma eleição onde analfabeto também vota. Ninguém se lembra que Amadeu Amaral, um dos grandes intelectuais brasileiros da primeira metade do séc. XX só estudou até a quarta série, o que não impediu que se tornasse um grande jornalista, cargo que não conseguiria ocupar se tivesse nascido um século depois, graças a esse pensamento mesquinho de julgar uma pessoa por um currículo baseado em títulos e formalidades. Qualquer opinião veiculada na internet hoje em dia é assinada por um doutor em alguma coisa ou por alguém famoso. Tem até poema de Fernando Pessoa com a palavra "internet". Ou seja: um anônimo qualquer escreve alguma coisa e lança na rede. Mas quem é ele? um desautorizado, então assina com o nome de um famoso ou de algum desconhecido que é doutor e dá aula na universidade da rua tal e todo mundo acredita, pois é a autoridade do autor, e não o mérito do texto, que importa.

O brasileiro se engana ou se deixa enganar? Reduzir tudo a formalidades, a aparências, não vai nos levar a lugar nenhum. A posição dos candidatos à presidência da república com relação ao aborto não é a questão sobre a qual devemos basear nossa escolha, até porque essa decisão cabe ao legislativo. O aborto é tolerado por nossa sociedade, inclusive pelas pessoas que discursam contra sua legalização. Ele existe, mas todos fazem vista grossa. O debate só tomou esta dimensão porque existir na prática é uma coisa, mas existir na lei é outra, inadmissível: lei para inglês ver.

Ontem comentei a postura vergonhosa da imprensa, que se diz democrática, mas demite os jornalistas que não concordam com a opinião oficial da instituição (http://vermelhosobreazul.blogspot.com/2010/10/censura-interna-da-midia.html). Um funcionário do Palácio do Planalto pode falar mal do presidente da república, "ditador" segundo a mídia, mas um funcionário do "democrático" jornal O Estado de S. Paulo é demitido por dar seus pitacos. O que a imprensa quer é implantar no Brasil uma democracia para inglês ver, onde quem concorda com o ponto de vista de meia dúzia de donos de jornais é cidadão consciente e quem tem outra opinião é lunático ou burro.

Deixemos os ingleses em Londres bebendo chá e façamos um Brasil para brasileiro ver. Ou, como disse Paulo Moreira Leite, "que tal abortar a hipocrisia? http://www.viomundo.com.br/politica/paulo-moreira-leite-que-tal-abortar-a-hipocrisia.html

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A censura interna da mídia

Hoje recebi a triste notícia da demissão de Maria Rita Kehl do jornal O Estado de S. Paulo, depois de ter publicado em sua coluna, na véspera da eleição, um artigo que contraria a posição defendida pelo jornal. Na última terça-feira eu e um amigo conversamos sobre a demissão de Heródoto Barbeiro da TV Cultura, aparentemente por motivos políticos. Recomendo aos leitores, antes de mais nada, que leiam a entrevista que Maria Rita concedeu a Bob Tavares (http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4722228-EI6578,00-Maria+Rita+Kehl+Fui+demitida+por+um+delito+de+opiniao.html) e o vídeo que mostra Barbeiro colocando Serra em uma saia justa durante o programa Roda Viva (http://www.youtube.com/watch?v=TYGFSGVkK2o&feature=related).

Pois bem, antes de discutir as demissões, vou mostrar um pouco o comportamento da imprensa com relação ao governo, bem como o do governo em relação à imprensa.

Os órgãos de imprensa chamados de PIG (Partido da Imprensa Golpista, mas eu prefiro evitar o termo) devido a seus históricos duvidosos (http://vermelhosobreazul.blogspot.com/2010/10/como-midia-manipula-os-fatos.html) e a seu trabalho conjunto de distorcer os fatos para favorecer a imagem do PSDB, alegam que o governo deseja censurar a imprensa (então por que ainda não censurou?). Um bom exemplo é a alegação unanime por parte desses órgãos de imprensa que um decreto de Lula referente à punição de órgãos de imprensa que desrespeitarem os direitos humanos é o retorno da censura aos meios de comunicação e marco do início de uma ditadura do PT.

Mas que ditadura? A Folha de S. Paulo afirmou que nunca houve ditadura em nosso país, o que tivemos foi uma "ditabranda". Isso sim é um desrespeito àqueles que foram torturados e mortos pelo regime mais sangrento da história de nosso país, bem como a seus familiares. A "ditabranda" só existiu para José Serra, Fernando Henrique Cardoso e outros opositores do regime que fugiram do país antes do AI-5 e não presenciaram os momentos de maior terror, bem como jamais foram presos e torturados, tendo retornado ao Brasil somente após a anistia para entrar na política fazendo pose de heróis. Enquanto Dilma era torturada no Dops, Serra tomava cafezinho em Santiago do Chile.

O fato é que os órgãos de imprensa têm atacado sistematicamente o presidente Lula e o PT desde quando este assumiu a presidência da república, ao mesmo tempo em que demonstram simpatia pelos tucanos. Se dizem os paladinos da democracia e acusam Lula de querer censurar a imprensa (o que nunca aconteceu), mas nada falam sobre sua censura interna, a qual impede que notícias e principalmente opiniões sejam divulgadas de maneira favorável ao PT. Estes órgãos são tão democráticos que só admitem uma visão de mundo: a deles. Se algum colunista tiver opinião diferente vai logo para o olho da rua. Nossa mídia vive na época da inquisição, fazendo patrulha ideológica e punindo os hereges, pois é uma heresia ter opinião diferente.

Eis que Maria Rita Kehl publica uma opinião contrária à defendida pelo jornal no qual ela trabalhava (http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101002/not_imp618576,0.php) e é demitida. O mesmo jornal que todos os dias publica a mesma reportagem "'Estado' sob censura há XXX dias", fazendo-se de vítima de uma decisão judicial que o proíbe de publicar notícias difamatórias sobre a família Sarney e tentando tirar proveito político desta decisão judicial, que nada tem a ver com o governo Lula. O mesmo jornal que apoiou o golpe de 64 e depois se mostrou como vítima dele.

O caso de Heródoto Barbeiro é outra situação: a TV Cultura é um órgão público, pertencente ao governo do estado de São Paulo e que ganhou notoriedade pela qualidade educativa e informativa de sua programação, especialmente através dos programas infantis, quase todos produzidos antes do PSDB assumir o governo paulista, e do Roda Viva, programa de entrevistas apresentado por Barbeiro. Os presidenciáveis deste ano foram convidados a participar do Roda Viva e todos foram sabatinados pelo apresentador e por jornalistas. No entanto, Serra foi questionado sobre as tarifas dos pedágios em SP, se irritou com a pergunta, desconversou e disse que o "boato" dos pedágios é invenção do PT. Pouco tempo depois, Barbeiro foi demitido e a emissora não deu explicação convincente sobre o fato. Marília Gabriela foi contratada para apresentar o programa, agora orientado à defesa do ponto de vista tucano, com direito a  dois jornalistas fixos na bancada: Augusto Nunes, com passagem pelas revistas Veja e Época e pelo jornal O Estado de S. Paulo, e Paulo Moreira Leite, da revista Época e candidato a ser o próximo demitido por sua mais recente publicação: http://colunas.epoca.globo.com/paulomoreiraleite/2010/10/06/que-tal-abortar-a-hipocrisia/. Depois acusam Lula de usar o aparelho do Estado como máquina de propaganda.

Por fim, vale a pena a leitura de uma publicação de Luis Favre (http://blogdofavre.ig.com.br/2010/07/demissao-de-herodoto-barbeiro-do-roda-viva-provoca-questionamentos/), com a qual eu não concordo totalmente, mas apresenta excelentes momentos, como estes: "José Serra é conhecido por pedir a cabeça dos jornalistas que considera pouco maleáveis. Alguns já sofreram dessa repressão e intolerância do tucano com os que ousam contestar sua postura" (eis o homem que o "PIG" considera democrático) e "fica meu espanto com a soberba, intolerância, falta de espírito democrático e a má fé do candidato Serra, explícitas no vídeo".

Lembram-se do homem cordial (http://vermelhosobreazul.blogspot.com/2010/10/o-brasileiro-um-homem-cordial.html)? Ei-lo político. Ei-lo dono de jornal. Ei-lo jornalista. Age movido pelas paixões, mesmo que para isso tenha que passar por cima da ética. Ironicamente, cobra ética por parte daqueles a quem critica.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Como a mídia manipula os fatos.

Ando atormentado pela seguinte questão: como é que a mídia brasileira conseguiu se tornar tão poderosa e manipular a opinião pública de maneira tão eficiente? Tenho lido, nos últimos dias, alguns artigos de Cavaquinho e Saxofone, livro de Antônio de Alcântara Machado, que retrata de maneira crítica a academia e a imprensa paulista de um século atrás. A impressão que tenho é de que pouca coisa mudou. Mas deixemos as notas tristes dos solos de saxofone para outro dia, pois um amigo me enviou um link para duas versões diferentes de uma mesma notícia, relacionada a José Serra, veiculada na mídia ontem. Eis os vídeos de dois telejornais, a partir dos quais refletirei: http://www.viomundo.com.br/politica/duas-visoes-de-um-mesmo-fato.html .

Começarei analisando a versão da Rede Record: a repórter apresenta a notícia dando a entender que Serra afirmou ser um ambientalista convicto por interesse nos votos de quem votou em Marina no primeiro turno. No entanto, ele defende Belo Monte, tão criticada pela candidata do PV, mas defendida pelos dois presidenciáveis. Em seguida as imagens de Serra saindo do carro mostram vaias e críticas a uma obra mal feita de sua gestão como governador: "vá filmar os buracos", grita o morador ao repórter. A recepção hostil fez Serra mudar os planos, entrar rapidamente no carro e ir embora. Em outro local, Serra conversa com a imprensa e solta a pérola "eu tenho um currículo ambiental muito bom (?), de maneira que a aproximação com o PV nesse aspecto é absolutamente natural" (reparem que ele disse PV e não Marina). Termina defendendo a construção de Belo Monte, mas corrigindo "os absurdos ambientais (como?), as falhas econômicas (podia ter corrigido as do Rodoanel primeiro) e as falhas do próprio projeto (quais?)".

Vejamos agora a versão da Rede Globo: já começam dizendo que Serra recebeu o apoio de diversos políticos e saberá conseguir maioria no congresso. Serra é abraçado pelos moradores, sem vaias nem protestos. A obra inaugurada "comunica o maior aeroporto do país, que é o de Cumbica, com o maior porto do... (do que mesmo?) país que é o de Santos", explica o candidato, com ar de autoridade em logística, aos repórteres, complementando que seu grandioso feito possibilitará a implantação "de indústrias e de emprego (sic)". Sõ faltou explicar como, já que Cumbica está próximo de seu limite operacional (http://jovempan.uol.com.br/programas/terminal-de-cargas-de-cumbica-esta-perto-do-limite-207786,,0) e o porto de Santos também opera em situação crítica (http://www.readmetro.com/show/en/MetroCampinas/20101001/16/1/). Depois disso Serra se gaba de ter "experiência em formar maioria"(?). "O que eu quero fazer (...) é mostrar quem eu sou, o que eu fiz, e o que eu pretendo" (essa frase merece um artigo à parte, senão vários). O final da reportagem mostra Serra recebendo apoio de vários políticos da base aliada e anuncia uma reunião dele com "políticos vitoriosos do PSDB".

É a mesma notícia, mas deformada para forçar ao telespectador determinada interpretação, dentre as várias possíveis. Dessa forma a mídia deixa de ser formadora de opinião para se tornar manipuladora de opinião. Recorro a Cavaquinho e Saxofone: "os pretensos órgãos autorizados da opinião popular entre nós (com as exceções de estilo) representam na verdade o sentir de minguados mas poderosos grupos de cavalheiros bem instalados na vida ou na política". Pois não é esse o caso dos donos dos principais jornais, revistas e emissoras de TV do país?

O jornal O Estado de S. Paulo, que a um mês do primeiro turno das eleições assumiu publicamente, em um editorial intitulado "O mal a evitar", seu apoio à candidatura de Serra, é o mesmo que, em 1964, apoiou sem ressalvas o golpe militar que instaurou a pior ditadura que já tivemos. Na ocasião, o golpe foi anunciado em suas manchetes com o nome de "Revolução Democrática". Agora Serra é o "herói" da vez. Herói forjado pelo governo FHC que deu a ele o ministério da saúde no momento exato de colher os frutos do excelente trabalho do ex-ministro Adib Jatene. E não bastou: perdeu para Lula nas eleições em 2002. Desde então, a imprensa paulista e o governo do estado de S. Paulo se tornaram os dois principais escultores da imagem de Serra.

A rede globo, essa mesma do vídeo comentado neste texto, usou dinheiro ilegal para se tornar uma das maiores redes de TV do mundo e usou seu poder para defender a visão política de seu fundador, Roberto Marinho. A história da TV Globo é muito bem contada no documentário Muito Além do Cidadão Kane (disponível, tanto para download quanto em streaming, neste endereço: http://www.archive.org/details/Roberto_marinho_alem_do_cidadao_kane). A Globo usou seu poder para transformar o desconhecido governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello,no homem certo para governar o Brasil. Deu no que deu. A eleição de 1989, entre Collor e Lula, foi vergonhosamente manipulada pela Globo, que, dentre outras coisas, lançou um compacto do debate entre os candidatos mostrando o melhor de Collor e o pior de Lula. Tudo editado de maneira bem mais tendenciosa do que a reportagem sobre Serra que serviu de pretexto a esta discussão. Está tudo lá no filme, que deveria ser obrigatório, e não censurado, para os brasileiros (a Globo usou seu poder para conseguir proibir a venda do filme no Brasil, mas não é crime assisti-lo nem divulgá-lo).

Enfim, os grandes órgãos de imprensa do Brasil possuem históricos altamente reprováveis, mas dos quais se orgulham, pois consideram que fazem o melhor para o país. Não conseguem perceber que o mundo é mais que o próprio umbigo. Chico Buarque, um grande crítico da imprensa brasileira, disse em entrevista: "a mídia ecoa  muito mais o  mensalão do que fazia com aquelas histórias do Fernando Henrique, a compra de votos, as privatizações. O Fernando Henrique sempre teve uma defesa sólida na mídia, colunistas chapa-branca dispostos a defendê-lo a todo custo. O Lula não tem. Pelo contrário, é concurso de porrada para  ver quem bate mais".

O motivo que me levou a fazer este blog é que, ao ver toda a imprensa mobilizada a favor de Serra, senti medo de que estejam tentando repetir 89. A Globo não consegue mais fazer isso sozinha, mas, com a ajuda da Veja e dos jornais paulistas, quem sabe? De qualquer forma, independente do resultado das eleições é visível que ela não concentra mais tanto poder, e atribuo parte dessa perda de poder à internet, parte aos sucessivos exageros dela mesma, que acabaram evidenciando seu aspecto manipulador e resultando em perda de credibilidade.