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quinta-feira, 19 de maio de 2011

A mídia, e não o livro, ensina errado

Lembram do livro didático que, segundo os jornais e a TV, ensina errado? Pois é, parece que não é bem assim: são os "jornalistas" (com todo o respeito à classe profissional, pois me refiro às bestas de jornal que se acham jornalistas) que não entendem a norma culta da língua (à qual defendem) e interpretam de forma errada os conceitos explicitados no texto.

Não quero me alongar, pois meu objetivo, com este texto, não é tornar a discutir o assunto, mas apresentar aos meus leitores alguns textos interessantíssimos e esclarecedores que recebi hoje.

O primeiro é um artigo do professor Sírio Possenti, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, muito esclarecedor sobre a questão do preconceito lingüístico e que nos mostra claramente como a mídia deturpou o sentido do texto original, presente no livro didático: http://bit.ly/iOI4ms

 O segundo texto recebi agora há pouco, através da lista de e-mails da pós-graduação do IEL, e achei importante compartilhá-lo, pois trata-se de um esclarecimento da Ação Educativa, responsável pela edição do livro. Deve-se sempre ouvir a parte ofendida antes de julgar em favor do ofensor: http://www.acaoeducativa.org/index.php?option=com_content&task=view&id=2604&Itemid=2


Boas leituras e até a próxima!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Liberdade de imprensa nem um pouco ameaçada.

Me diverti muito ao ler esta entrevista hoje cedo: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101122/not_imp643479,0.php. Trata-se de uma entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo, um dos maiores críticos à regulação da imprensa, que considera censura, pela consultora da UNESCO Eve Salomon.

Em primeiro lugar, é interessante notar a posição do jornal, que elabora as perguntas de forma a direcionar as respostas a um sentido favorável à opinião de que as mudanças são parte de um processo de censura, mas as respostas são brilhantes e fogem das armadilhas do jornal, que saiu derrotado nesta entrevista.

Não há nada de errado no fato do governo reclamar da mídia, pois esta, de fato, está longe de ser considerada um exemplo de jornalismo ético, comprometido com a verdade e a imparcialidade. Quando os principais órgãos de mídia adotam uma mesma posição política, é necessário algum tipo de intervenção que não os cale, mas garanta o direito de resposta às partes atingidas. Cada um tem o direito de se defender das críticas que recebe, mas esse direito, garantido pela constituição, é desrespeitado diariamente.

Um exemplo, uma certa revista semanal já publicou, em diversas ocasiões, reportagens desfavoráveis ao esperanto que reforçam clichês e deduções distantes da realidade, mas convincentes para um leigo. As reportagens, obviamente, geraram reações por parte da comunidade esperantista brasileira e estrangeira, que enviou diversas mensagens à redação desta revista. Quantas foram publicadas? Nenhuma. É um caso isolado? infelizmente está longe de ser.

E o que falar das recentes CPIs dos Correios e da Petrobrás? Quanto dinheiro público foi gasto nesses shows de demagogia que só serviram para mostrar que não havia nada de errado com essas empresas? Que escândalo os jornais fizeram! Quantos ortigos os Diogos Mainardis de plantão escreveram metendo o pau no governo com base no diz-que-diz-que? E quantos comentários dos comentaristas de TV? No fim, quando foi tudo apurado, a imprensa, que havia tomado partido em favor dos derrotados, não mostrou os fatos que estavam ali apurados cuidadosamente por pessoas autorizadas, e não por boateiros de jornal.

Um ponto importante que a mídia ignora a respeito da regulação é a forma como a punição é aplicada: no caso de censura, o órgão é impedido de publicar algo (assim como estes mesmos órgãos impedem, e portanto censuram, a publicação de certas cartas ou de artigos de colunistas que discordam do ponto de vista de seus superiores). O que se quer fazer no Brasil é criar agências reguladoras que não impeçam a reportagem de ser publicada, mas intervenham no sentido de garantir o direito de resposta das partes atingidas, bem como proteger a privacidade das pessoas, as crianças e a diversidade de opiniões. Isso é bom para o desenvolvimento da nossa democracia, que, como Sérgio Buarque já observava há quase um século, em nosso país sempre foi confundida com liberalismo.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O ódio dos derrotados

Democracia é uma palavra de origem grega e significa "poder do povo" (demos = povo, kratos = poder). Portanto, o objetivo final de um regime democrático é dar voz a todos, permitir que cada um se manifeste de acordo com suas próprias convicções, mas, como é impossível agradar a todos, a decisão final se baseia na vontade da maioria.

Sérgio Buarque de Holanda atentava para a confusão entre democracia e liberalismo, tão comum na sociedade brasileira. É justamente esta confusão que sustenta o frágil argumento de que democracia consiste em rotatividade do poder. Não. Democracia é o poder do povo, no caso do Brasil, exercida de forma representativa, ou seja, damos ao legislativo o poder de nos representar nas votações que definem os rumos do país, além de elegermos os principais cargos do poder executivo: prefeito, governador e presidente da república.

O fato é que, até do fim da ditadura militar, só se respeitavam os valores democráticos enquanto estes não entrassem em conflito com interesses das elites. Somente após a redemocratização do país é que a verdadeira democracia passou a florescer entre nós, visto que agora todos os brasileiros possuem representação política, reivindicam, fiscalizam o poder público e vão às urnas escolher seus governantes.

Os direitos políticos que os brasileiros de hoje possuem são fruto de uma luta histórica pela qual muitos brasileiros foram torturados e até mortos. Luta de um povo formado por pobres e ricos, das mais diversas raças e credos religiosos, e que se desenvolveu em todo o território nacional, nas ruas, nas universidades, nas igrejas, nas fábricas, enfim, em diversos espaços diferentes, cada um com uma característica específica, mas em todos os lugares havia uma mesma luta e um mesmo ideal. E assim nosso povo conquistou a liberdade e a democracia.

Por isso, é lamentável que parte da nossa sociedade queira um retrocesso. Se, durante a campanha de Serra à presidência da república, percebi em muitos de seus aliados políticos e eleitores um sentimento de nostalgia da ditadura, após a confirmação de Dilma como nossa nova presidente, recebi a confirmação disso: incitados por Mayara Petruso et al., diversos internautas começaram a publicar no twitter o que há de mais condenável em termos de preconceito. Ao invés de celebrarem a democracia, se recusaram a aceitar a derrota do candidato apoiado por eles e passaram a incitar o ódio aos nordestinos, aos pobres e às raças não européias, "culpando-os" (é vergonhoso votar?) pela escolha da candidata que não era da preferência deles. Eis uma pequena coletânea da barbárie: http://www.youtube.com/watch?v=tCORsD-hx0w

Em primeiro lugar, cada um deve votar segundo suas próprias preferências. É necessário respeitar a liberdade de opinião e de pensamento de cada um e aprender a não discriminar ninguém por ter outra visão de mundo. Com que direito uma pessoa afirma que a outra "não sabe votar", sendo tal constatação fruto de suas convicções pessoais? Aí entra o argumento do "eu tenho estudo". E daí? democracia é para todos, eu também tenho estudo e votei na Dilma. Aliás, os maiores intelecutuais brasileiros votaram nela (eis alguns exemplos: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-manifesto-dos-intelectuais). Ambos candidatos receberam votos em todos os municípios do Brasil, incluindo o "Sul-Sudeste", onde, segundo a turma de Mayara, "se sabe votar".

O discurso dessas pessoas é contraditório do começo ao fim. São Paulo, Minas e Rio de Janeiro são colégios eleitorais muito maiores do que qualquer estado nordestino. No Rio, Dilma dominou, Minas ficou dividido e em São Paulo, tradicional reduto tucano, a vantagem de Serra foi pequena. Se o tal "sul-sudeste" realmente tivesse escolhido Serra, a vitória de Dilma no nordeste teria sido inútil. Além disso, Dilma venceu em metade do território dos estados do "sul-sudeste" (http://www.estadao.com.br/especiais/mapa-da-votacao-para-presidente-nos-municipios,123626.htm) e é só fazer as contas para perceber que mesmo sem nordeste ela teria sido eleita.

A crença de que nordestino vende o voto por um saco de arroz é outra bobagem que só nos mostra quão grande é a ignorância dessas pessoas, incapazes de perceber o óbvio: enquanto tradicionais caciques da política nordestina não foram eleitos, São Paulo deu mais de 400.000 votos a Paulo Maluf. Dirão que o Pará elegeu Jader Barbalho, prova do atraso daquele estado. Ok, mas São Paulo, terra da maioria dessas pessoas que odeiam os nordestinos e os analfabetos, elegeu Tiririca, nordestino e supostamente analfabeto, para representá-lo na câmara. Além disso, nas últimas eleições, São Paulo foi o campeão em eleger parlamentares exóticos e "celebridades", como Clodovil, Frank Aguiar e Agnaldo Timóteo. Grande contraste com a "atrasada" Bahia, onde ridículos como o Da Luz, que aparecia no horário eleitoral com lâmpadas penduradas no corpo, jamais foram eleitos.

 Os antidemocráticos também manifestaram a crença de que no nordeste os eleitores vivem, todos, no semi-árido e no norte só existem índios. Aos que acreditam nessa bobagem, sugiro que troquem uma hora de twitter pela página do IBGE, onde há o cidades@, que nos mostra onde ficam os municípios mais populosos (no nordeste, ficam no litoral, seguidos pela Zona da Mata e pelo Agreste. Uma percentagem muito pequena da população vive no semi-árido. No norte, as cidades se concentram às margens dos rios e, em ambas as regiões, há grande concentração populacional nas capitais). Nestas regiões há, sim, educação pública para todos ou quase todos, o analfabetismo vem diminuindo e, nas duas edições da Olimpíada Nacional em História do Brasil, o nordeste foi mais premiado do que as demais regiões do país (http://www.mc.unicamp.br/2-olimpiada/premiacoes/index).


Quanto a instituir o voto censitário, não vejo motivo. Em primeiro lugar, cada um, na condição de cidadão, tem o direito de eleger seus governantes. Se um pobre tem preferência por algum candidato é porque, mesmo tendo pouca instrução, percebe que as políticas defendidas pelo candidato o beneficiarão. Quem tem diploma age de outra forma na hora de escolher em quem votar?


Além disso, é curioso notar que a cidade onde Serra teve o maior percentual de votos está situada no norte do país: trata-se de Rio Branco, capital do Acre. Mas não é lá a "terra dos índios vagabundos que vivem às custas do bolsa-família pago pelo sul-sudeste"? Não é lá que "só tem burros analfabetos dispostos a tocar o voto por um saco de arroz"? Como explicar ter sido justamente lá o palco da maior vitória do "candidato dos inteligentes" contra a "candidata dos ignorantes"?

Por fim, diante de tantos comentários do tipo "agora nós do sul-sudeste teremos que continuar trabalhando para sustentar nordestino vagabundo com bolsa-família", faço uma pergunta a essas pessoas: se são contra o bolsa-família, por que motivo votaram no candidato que prometeu não apenas manter o programa, mas também dobrar o valor dessas bolsas, criar 13o e ainda por cima aumentar a quantidade de bolsas oferecidas?

A OAB-PE entrou hoje com representação criminal contra Mayara na justiça paulista. Ao ler notícia sobre isso (http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=878557), me espantei ao descobrir que ela é estudante de direito, tendo agido, portanto, de forma contrária à função social de sua futura profissão. Que seja julgada de forma democrática, apesar de ela não gostar da democracia, e sua condenação, iminente diante de tantas provas e testemunhas de seu ato, sirva de exemplo para coibir atos semelhantes.

O episódio protagonizado por Mayara me fez lembrar de uma ação de um grupo neonazista em São Paulo, há cerca de uma década, quando picharam o local com ameaças aos nordestinos que vivem em São Paulo. Ben Abraham, imigrante polonês vítima do nazismo acredita que, quando não denunciamos a perseguição às minorias, damos carta branca para que a barbárie continue acontecendo (http://ditaduranazista.blogspot.com/).

Por fim, recomendo a leitura do artigo de Maria Rita Kehl que resultou em sua demisssão do Jornal O Estado de S. Paulo. Sua leitura e a posterior demissão de sua autora evidenciam que comportamentos como o de Mayara são incentivados por uma mídia que reforça estereótipos e mitos relacionados ao norte e ao nordeste e cala quem ousa defendê-los (Artigo: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/maria-rita-kehl-dois-pesos.html Entrevista com a autora: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4722228-EI6578,00-Maria+Rita+Kehl+Fui+demitida+por+um+delito+de+opiniao.html).

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A preservação dos valores democráticos.

Muitos ativistas acusam candidatos à presidência de serem uma ameaça à democracia. Alguns acusam Serra, outros acusam Dilma, e há também que acuse ambos.

Quem está com a razão? Vamos aos fatos.

O Brasil, durante a maior parte de sua história, foi governado por um ditador, a começar pelo rei de Portugal. Com a independência, nos tornamos um império e finalmente tivemos um poder moderador: o congresso, fechado quando se opunha à vontade do imperador, e reaberto quando a popularidade do monarca atingia níveis muito baixos.

Depois da proclamação da república, tivemos a república da espada, época em que os presidentes eram militares. Depois veio o café com leite: São Paulo e Minas usaram o poder em benefício próprio (não do povo, mas dos latinfundiários). Veio a revolução de 30, tivemos a ditadura de Vargas, períodos curtos nos quais a democracia floresceu, a ditadura militar de 64, que durou 21 anos e, por fim, a redemocratização, com a constituição de 88. Desde então, embora muito se critique a democracia no Brasil, ela está evoluindo e se afirmando.

Um bom exemplo disso é a chamada compra de votos, que vai se tornando cada vez menos comum. José Murilo de Carvalho observa (In: Cidadania no Brasil: o longo caminho) que nos primórdios da república, a compra de votos era o meio pelo qual os políticos se elegiam, mas com o passar do tempo o eleitor passou a cobrar cada vez mais caro pelo seu voto, ia tomando consciência de que aquilo tinha valor, e daí à consciência cidadã era um passo, e a compra se tornava um fardo pesado para os políticos, que optaram por instituir o voto censitário alegando que um povo ignorante não estava apto a votar. Assim se matou a primeira tentativa de democratizar o país e o voto foi restrito às elites.

A nossa constituição de hoje assegura o direito de voto aos pobres e aos analfabetos, direito condenado por muitos partidários de Serra e órgãos de mídia que o apóiam. Nossa democracia é jovem e os valores democráticos estão se tornando cada vez mais sólidos. Não podemos nos deixar levar por discursos preconceituosos que pregam o direito de voto apenas aos que tem diploma de nível superior ou aos que tem dinheiro para assinar jornal. Isso é discriminar. O povo, historicamente excluído do processo democrático, hoje tem voz. Ainda não discursa, mas está aprendendo. Vimos, na última eleição, vários caciques da nossa política não serem reeleitos. Não eram eles que os analfabetos elegiam em troca de um mísero par de sapatos? Pois bem, agora está surgindo uma consciência de que o voto vale bem mais do que isso. Cabe a nós, cidadãos, mais do que ir às urnas, usar nossos direitos políticos no dia-a-dia, cobrando ações dos governantes, fiscalizando-os e participando ativamente dos debates em torno do desenvolvimento da nação.

A mídia serrista é formada pelo jornal O Estado de S. Paulo, principal apoiador do golpe de 64, pela Globo, criada com o patrocínio dos militares para apoiar o regime, que manipulou as eleições de 89 e elegeu Collor, e por tantos outros órgãos de mídia que chegaram ao cúmulo de publicar fotomontagens e notícias baseadas em boatos de internet para associar Dilma ao terrorismo. Eis exemplos do que há de mais condenável nessas instituições. Os blogs foram a principal forma da esquerda mostrar sua visão dos fatos e combater a doutrinação ideológica dos principais meios de comunicação do país. Talvez isto explique porque Serra defende a censura aos "blogs sujos" que contrariam seu ponto de vista.

Já pensaram na diferença entre a visão de mundo dos eleitores de Serra e de Dilma? O eleitorado tucano é predominantemente das classes A e B. Não se trata de serem pessoas mais cultas ou esclarecidas, visto que os grandes intelectuais do país apóiam Dilma. São, isso sim, classes privilegiadas que vivem uma realidade distante daquela vivida pela maioria da população. Gente cuja vida se limita aos limites dos condomínios e shoppings. Gente que tem nojo de pobre. Gente que se envergonha do Brasil porque aqui há muita pobreza, mas prefere continuar se envergonhando a permitir o avanço de programas sociais que promovam melhores condições de vida e aumento da renda da periferia.

Os eleitores de Dilma, ao contrário, se distribuem por todas as classes sociais, indo desde os maiores intelectuais brasileiros, que compreendem a necessidade de nosso pais combater a desigualdade social, há muito tempo além do limite do tolerável, até os pobres, outrora esquecidos pelo Estado, que agora vêem sua vida melhorar. Os programas de erradicação da pobreza no Brasil são elogiados e copiados mundo afora. A nova classe média, formada por pobres que ascenderam socialmente durante o governo Lula, está tirando cada vez mais gente da miséria e isso não é assistencialismo, é desenvolvimento social.

Com relação às eleições, devemos pautar nossa escolha pelo condidato que apresentar as melhores propostas e souber defendê-las nos debates, bem como demonstrar disposição para discuti-las e, eventualmente, modificá-las de acordo com o interesse coletivo. No entanto, o que vemos são ataques incessantes e cada vez mais apelativos à honra da candidata Dilma, que, tendo participado da luta pela democracia nos anos de chumbo, sido presa e torturada no DOPS, é tachada de terrorista (ecos de uma nostalgia da ditadura na campanha de Serra), enquanto o candidato tucano se mostra como um herói que lutou contra a ditadura (por correspondência, já que se autoexilou no exterior e não cumpriu nem mesmo seu mandato como presidente da UNE). Serra ainda teve a capacidade de negar o papel de sua adversária na luta contra o regime militar.

Dilma também tem feito ataques ao tucano, especialmente quando os ataques feitos a ela provocaram perda de votos da candidata petista, que tem todo o direito de se defender, seja desconstruindo as acusações feitas a ela, seja denunciando os podres do candidato adversário. Entretanto, ela também apresentou suas propostas, coisas que Serra não fez. É necessário ter o bom senso de escolher em quem votar com base nas propostas apresentadas, tendo como segundo critério a moral dos candidatos, revelada por suas atitudes com relação aos adversários. A democracia deve se pautar pelo respeito ao outro. Ataques gratuitos não contribuirão em nada para tornar mais esclarecedor o debate em torno da sucessão de Lula.

Lula deu exemplo de democracia durante seu governo, não interferindo uma única vez na atividade da imprensa, por mais que essa lhe tenha feito críticas sensacionalistas, tendenciosas e injustas. Durante a crise econômica, na qual o Brasil foi o último país a entrar e o primeiro a sair, a imprensa e os políticos tucanos acusaram Lula de estar agindo de maneira imatura e irresponsável e fizeram piada com a declaração do presidente de que no Brasil haveria uma "marolinha". É fato que nosso país cresceu durante a pior crise mundial das últimas décadas, que provocou caos em diversos países muito fortes economicamente e dotados de melhores meios de reduzir seus impactos. Torcer contra o Brasil em nome de um fanatismo ideológico é a prova de que essa gente não tem um pingo de amor ao país e só pensa em si mesma. Política não é futebol para escolhermos um time para torcer e comemorar quando o adversário perde um gol. Quando o governo comete um erro, todos nós pagamos por ele. O Estado é de todos e, fora das urnas, é nosso dever trabalhar por um país melhor independente de quem esteja no poder.

Lula comandou os trabalhadores brasileiros na luta pela redemocratização do país e, desde então, suas ações se pautaram pela defesa dos excluídos e pelo fortalecimento da democracia. Assim como Dilma, foi preso e torturado no período mais triste de nossa história. Mesmo sofrendo fortes ataques da revista Veja, o governo federal foi o principal assinante da revista, distribuída por bibliotecas e repartições públicas em todo o país. Quer atitude mais democrática do que essa? Você pode até não gostar de Lula, de Dilma e do PT, mas, se pode manifestar abertamente suas opiniões, agradeça a eles.

Voltarei a publicar neste blog somente depois da eleição. Até lá!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A cada um segundo seu mérito

Há poucos dias tomei conhecimento de que grandes intelectuais brasileiros lançaram um manifesto lançando apoio a Dilma. Tenho a honra de conhecer um deles, que foi justamente quem me contou sobre este manifesto, há dois dias.

Não creio ser necessário fazer muitos comentários a respeito deste manifesto, pois o próprio texto já diz tudo, mas lamento que a mídia simplesmente ignore este documento, pois, se um grupo de meia dúzia de "cerebridades" (sic) da Globo resolvesse fazer um manifesto (lembram do Cansei?) pró-Serra, certamente seria capa dos principais jornais do país e, claro, da Veja. Os grandes órgãos de imprensa têm razão ao afirmar que a liberdade de opinião no Brasil está ameaçada. Está sim: ameaçada por eles, que demitem colunistas que discordam da opinião institucional, ignoram as notícias que contrariam suas opiniões, censuram cartas de leitores que discordam do ponto de vista do colunista, transformam boatos em evidências, evidências em provas, provas em julgamento e julgamento em condenação, além, claro, de despolitizarem o debate em torno de tudo o que se faz em política no Brasil.

Recentemente a mídia, outrora fervorosa defensora do Estado laico, passou a se preocupar com a religiosidade dos candidatos, a publicar fotos excessivas de Serra fazendo orações ou o sinal da cruz, dando a entender que ele é um homem de Deus. Dilma, por se opor a ele, só pode ser...? Ora, como se não bastasse isso, há, na internet, diversos vídeos de líderes religiosos dizendo a seus fiéis para votarem ora em Serra, ora em Dilma. francamente, é esse o papel de um sacerdote cristão?

Se você, leitor, é cristão, saiba que um dos trechos mais conhecidos da bíblia diz que, ao ser indagado sobre ser ou não correto pagar o imposto a César, Jesus respondeu "dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". Esta frase basta para esclarecer a todo cristão que Jesus é contra a intromissão da Igreja em assuntos do Estado. O Estado cuida das coisas mundanas e a Igreja de coisas espirituais. São coisas diferentes e Jesus nunca se intrometeu na política. Portanto, o verdadeiro líder cristão é aquele que tem suas convicções políticas como qualquer cidadão, mas não usa sua posição para influenciar seus fiéis, consciente de que cada um deve votar de acordo com suas próprias convicções e sua própria consciência. Pois hoje em dia há quem chegue a associar este ou aquele candidato ao demônio e seu adversário a Deus. Ora, Deus não se intromete nesses assuntos. Nem ele nem o diabo apóiam Serra ou Dilma. Portanto, devemos reagir a esse oportunismo da mídia e de certos sacerdotes que desejam explorar a fé das pessoas para conseguir votos para um candidato.

Voltando à questão da liberdade de imprensa, hoje a ONG Repórteres sem Fronteiras divulgou seu ranking de países que melhor colaboram com a liberdade de imprensa: o Brasil subiu 13 posições. poderia ter subido mais se não houvesse a censura, imposta pelo poder judiciário, ao jornal O Estado de S. Paulo. A mídia brasileira, que vive afirmando que Lula é um ditador que luta contra a liberdade de imprensa (que ditador é esse que dá total liberdade à mídia para meter o pau nele?), tem apresentado esta notícia de forma a frisar a questão da censura ao Estado (que a mídia associa a Lula, que nada tem a ver com o judiciário, e à censura das ditaduras de outrora para criar a imagem do Lula ditador) e atribuindo a melhora à redução do número de assassinatos de jornalistas no Brasil (cuja causa é...?).

Imagino como seria se os Repórteres sem Fronteiras mudassem os critérios de pontuação de seu ranking e passassem a considerar também a censura interna da mídia, a demissão de colunistas que não concordam com a opinião do jornal, dentre outros fatores desconsiderados por eles. Nesse caso o Brasil despencaria nesse ranking e botariam a culpa... adivinha em quem?

Eis o manifesto de artistas e intelectuais pró-Dilma. Vale a pena ler o texto do manifesto. As assinaturas que aparecem na páginas são só algumas, o documento é assinado por muito mais gente.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Coisas para inglês ver.

Segundo José Murilo de Carvalho, a expressão “para inglês ver”, que significa lei ou promessa feita por mera formalidade, sem jamais ser efetivamente posta em prática, surgiu quando o governo brasileiro criou, em 1831, uma lei proibindo o tráfico negreiro para cumprir exigência de um tratado assinado com a Inglaterra, mas na prática a lei nunca saiu do papel, só servia para inglês ver.

Tal expressão é um retrato do Brasil, país onde o que importa são as formalidades. Já no período colonial era comum as famílias brasileiras viverem de forma humilde, por não terem condições de comprar certos alimentos, que custavam caro, e roupas novas. Mas essas mesmas famílias tinham belos vestidos caríssimos guardados para ocasiões especiais, e sempre que recebiam visita colocavam roupas chiques e ofereciam banquetes a autoridades da coroa e da igreja. Resultado: em Portugal se pensava que os brasileiros eram riquíssimos e daí resultava que o rei mandava aumentar os impostos, tornando os brasileiros ainda mais pobres.

Portanto, nossa cultura se baseia em formalidades. Importa a beca, não a cabeça. Por isso mesmo tanta gente grita que deveria haver vestibular para escolher os parlamentares ao invés de uma eleição onde analfabeto também vota. Ninguém se lembra que Amadeu Amaral, um dos grandes intelectuais brasileiros da primeira metade do séc. XX só estudou até a quarta série, o que não impediu que se tornasse um grande jornalista, cargo que não conseguiria ocupar se tivesse nascido um século depois, graças a esse pensamento mesquinho de julgar uma pessoa por um currículo baseado em títulos e formalidades. Qualquer opinião veiculada na internet hoje em dia é assinada por um doutor em alguma coisa ou por alguém famoso. Tem até poema de Fernando Pessoa com a palavra "internet". Ou seja: um anônimo qualquer escreve alguma coisa e lança na rede. Mas quem é ele? um desautorizado, então assina com o nome de um famoso ou de algum desconhecido que é doutor e dá aula na universidade da rua tal e todo mundo acredita, pois é a autoridade do autor, e não o mérito do texto, que importa.

O brasileiro se engana ou se deixa enganar? Reduzir tudo a formalidades, a aparências, não vai nos levar a lugar nenhum. A posição dos candidatos à presidência da república com relação ao aborto não é a questão sobre a qual devemos basear nossa escolha, até porque essa decisão cabe ao legislativo. O aborto é tolerado por nossa sociedade, inclusive pelas pessoas que discursam contra sua legalização. Ele existe, mas todos fazem vista grossa. O debate só tomou esta dimensão porque existir na prática é uma coisa, mas existir na lei é outra, inadmissível: lei para inglês ver.

Ontem comentei a postura vergonhosa da imprensa, que se diz democrática, mas demite os jornalistas que não concordam com a opinião oficial da instituição (http://vermelhosobreazul.blogspot.com/2010/10/censura-interna-da-midia.html). Um funcionário do Palácio do Planalto pode falar mal do presidente da república, "ditador" segundo a mídia, mas um funcionário do "democrático" jornal O Estado de S. Paulo é demitido por dar seus pitacos. O que a imprensa quer é implantar no Brasil uma democracia para inglês ver, onde quem concorda com o ponto de vista de meia dúzia de donos de jornais é cidadão consciente e quem tem outra opinião é lunático ou burro.

Deixemos os ingleses em Londres bebendo chá e façamos um Brasil para brasileiro ver. Ou, como disse Paulo Moreira Leite, "que tal abortar a hipocrisia? http://www.viomundo.com.br/politica/paulo-moreira-leite-que-tal-abortar-a-hipocrisia.html

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Como a mídia manipula os fatos.

Ando atormentado pela seguinte questão: como é que a mídia brasileira conseguiu se tornar tão poderosa e manipular a opinião pública de maneira tão eficiente? Tenho lido, nos últimos dias, alguns artigos de Cavaquinho e Saxofone, livro de Antônio de Alcântara Machado, que retrata de maneira crítica a academia e a imprensa paulista de um século atrás. A impressão que tenho é de que pouca coisa mudou. Mas deixemos as notas tristes dos solos de saxofone para outro dia, pois um amigo me enviou um link para duas versões diferentes de uma mesma notícia, relacionada a José Serra, veiculada na mídia ontem. Eis os vídeos de dois telejornais, a partir dos quais refletirei: http://www.viomundo.com.br/politica/duas-visoes-de-um-mesmo-fato.html .

Começarei analisando a versão da Rede Record: a repórter apresenta a notícia dando a entender que Serra afirmou ser um ambientalista convicto por interesse nos votos de quem votou em Marina no primeiro turno. No entanto, ele defende Belo Monte, tão criticada pela candidata do PV, mas defendida pelos dois presidenciáveis. Em seguida as imagens de Serra saindo do carro mostram vaias e críticas a uma obra mal feita de sua gestão como governador: "vá filmar os buracos", grita o morador ao repórter. A recepção hostil fez Serra mudar os planos, entrar rapidamente no carro e ir embora. Em outro local, Serra conversa com a imprensa e solta a pérola "eu tenho um currículo ambiental muito bom (?), de maneira que a aproximação com o PV nesse aspecto é absolutamente natural" (reparem que ele disse PV e não Marina). Termina defendendo a construção de Belo Monte, mas corrigindo "os absurdos ambientais (como?), as falhas econômicas (podia ter corrigido as do Rodoanel primeiro) e as falhas do próprio projeto (quais?)".

Vejamos agora a versão da Rede Globo: já começam dizendo que Serra recebeu o apoio de diversos políticos e saberá conseguir maioria no congresso. Serra é abraçado pelos moradores, sem vaias nem protestos. A obra inaugurada "comunica o maior aeroporto do país, que é o de Cumbica, com o maior porto do... (do que mesmo?) país que é o de Santos", explica o candidato, com ar de autoridade em logística, aos repórteres, complementando que seu grandioso feito possibilitará a implantação "de indústrias e de emprego (sic)". Sõ faltou explicar como, já que Cumbica está próximo de seu limite operacional (http://jovempan.uol.com.br/programas/terminal-de-cargas-de-cumbica-esta-perto-do-limite-207786,,0) e o porto de Santos também opera em situação crítica (http://www.readmetro.com/show/en/MetroCampinas/20101001/16/1/). Depois disso Serra se gaba de ter "experiência em formar maioria"(?). "O que eu quero fazer (...) é mostrar quem eu sou, o que eu fiz, e o que eu pretendo" (essa frase merece um artigo à parte, senão vários). O final da reportagem mostra Serra recebendo apoio de vários políticos da base aliada e anuncia uma reunião dele com "políticos vitoriosos do PSDB".

É a mesma notícia, mas deformada para forçar ao telespectador determinada interpretação, dentre as várias possíveis. Dessa forma a mídia deixa de ser formadora de opinião para se tornar manipuladora de opinião. Recorro a Cavaquinho e Saxofone: "os pretensos órgãos autorizados da opinião popular entre nós (com as exceções de estilo) representam na verdade o sentir de minguados mas poderosos grupos de cavalheiros bem instalados na vida ou na política". Pois não é esse o caso dos donos dos principais jornais, revistas e emissoras de TV do país?

O jornal O Estado de S. Paulo, que a um mês do primeiro turno das eleições assumiu publicamente, em um editorial intitulado "O mal a evitar", seu apoio à candidatura de Serra, é o mesmo que, em 1964, apoiou sem ressalvas o golpe militar que instaurou a pior ditadura que já tivemos. Na ocasião, o golpe foi anunciado em suas manchetes com o nome de "Revolução Democrática". Agora Serra é o "herói" da vez. Herói forjado pelo governo FHC que deu a ele o ministério da saúde no momento exato de colher os frutos do excelente trabalho do ex-ministro Adib Jatene. E não bastou: perdeu para Lula nas eleições em 2002. Desde então, a imprensa paulista e o governo do estado de S. Paulo se tornaram os dois principais escultores da imagem de Serra.

A rede globo, essa mesma do vídeo comentado neste texto, usou dinheiro ilegal para se tornar uma das maiores redes de TV do mundo e usou seu poder para defender a visão política de seu fundador, Roberto Marinho. A história da TV Globo é muito bem contada no documentário Muito Além do Cidadão Kane (disponível, tanto para download quanto em streaming, neste endereço: http://www.archive.org/details/Roberto_marinho_alem_do_cidadao_kane). A Globo usou seu poder para transformar o desconhecido governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello,no homem certo para governar o Brasil. Deu no que deu. A eleição de 1989, entre Collor e Lula, foi vergonhosamente manipulada pela Globo, que, dentre outras coisas, lançou um compacto do debate entre os candidatos mostrando o melhor de Collor e o pior de Lula. Tudo editado de maneira bem mais tendenciosa do que a reportagem sobre Serra que serviu de pretexto a esta discussão. Está tudo lá no filme, que deveria ser obrigatório, e não censurado, para os brasileiros (a Globo usou seu poder para conseguir proibir a venda do filme no Brasil, mas não é crime assisti-lo nem divulgá-lo).

Enfim, os grandes órgãos de imprensa do Brasil possuem históricos altamente reprováveis, mas dos quais se orgulham, pois consideram que fazem o melhor para o país. Não conseguem perceber que o mundo é mais que o próprio umbigo. Chico Buarque, um grande crítico da imprensa brasileira, disse em entrevista: "a mídia ecoa  muito mais o  mensalão do que fazia com aquelas histórias do Fernando Henrique, a compra de votos, as privatizações. O Fernando Henrique sempre teve uma defesa sólida na mídia, colunistas chapa-branca dispostos a defendê-lo a todo custo. O Lula não tem. Pelo contrário, é concurso de porrada para  ver quem bate mais".

O motivo que me levou a fazer este blog é que, ao ver toda a imprensa mobilizada a favor de Serra, senti medo de que estejam tentando repetir 89. A Globo não consegue mais fazer isso sozinha, mas, com a ajuda da Veja e dos jornais paulistas, quem sabe? De qualquer forma, independente do resultado das eleições é visível que ela não concentra mais tanto poder, e atribuo parte dessa perda de poder à internet, parte aos sucessivos exageros dela mesma, que acabaram evidenciando seu aspecto manipulador e resultando em perda de credibilidade.