sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A preservação dos valores democráticos.

Muitos ativistas acusam candidatos à presidência de serem uma ameaça à democracia. Alguns acusam Serra, outros acusam Dilma, e há também que acuse ambos.

Quem está com a razão? Vamos aos fatos.

O Brasil, durante a maior parte de sua história, foi governado por um ditador, a começar pelo rei de Portugal. Com a independência, nos tornamos um império e finalmente tivemos um poder moderador: o congresso, fechado quando se opunha à vontade do imperador, e reaberto quando a popularidade do monarca atingia níveis muito baixos.

Depois da proclamação da república, tivemos a república da espada, época em que os presidentes eram militares. Depois veio o café com leite: São Paulo e Minas usaram o poder em benefício próprio (não do povo, mas dos latinfundiários). Veio a revolução de 30, tivemos a ditadura de Vargas, períodos curtos nos quais a democracia floresceu, a ditadura militar de 64, que durou 21 anos e, por fim, a redemocratização, com a constituição de 88. Desde então, embora muito se critique a democracia no Brasil, ela está evoluindo e se afirmando.

Um bom exemplo disso é a chamada compra de votos, que vai se tornando cada vez menos comum. José Murilo de Carvalho observa (In: Cidadania no Brasil: o longo caminho) que nos primórdios da república, a compra de votos era o meio pelo qual os políticos se elegiam, mas com o passar do tempo o eleitor passou a cobrar cada vez mais caro pelo seu voto, ia tomando consciência de que aquilo tinha valor, e daí à consciência cidadã era um passo, e a compra se tornava um fardo pesado para os políticos, que optaram por instituir o voto censitário alegando que um povo ignorante não estava apto a votar. Assim se matou a primeira tentativa de democratizar o país e o voto foi restrito às elites.

A nossa constituição de hoje assegura o direito de voto aos pobres e aos analfabetos, direito condenado por muitos partidários de Serra e órgãos de mídia que o apóiam. Nossa democracia é jovem e os valores democráticos estão se tornando cada vez mais sólidos. Não podemos nos deixar levar por discursos preconceituosos que pregam o direito de voto apenas aos que tem diploma de nível superior ou aos que tem dinheiro para assinar jornal. Isso é discriminar. O povo, historicamente excluído do processo democrático, hoje tem voz. Ainda não discursa, mas está aprendendo. Vimos, na última eleição, vários caciques da nossa política não serem reeleitos. Não eram eles que os analfabetos elegiam em troca de um mísero par de sapatos? Pois bem, agora está surgindo uma consciência de que o voto vale bem mais do que isso. Cabe a nós, cidadãos, mais do que ir às urnas, usar nossos direitos políticos no dia-a-dia, cobrando ações dos governantes, fiscalizando-os e participando ativamente dos debates em torno do desenvolvimento da nação.

A mídia serrista é formada pelo jornal O Estado de S. Paulo, principal apoiador do golpe de 64, pela Globo, criada com o patrocínio dos militares para apoiar o regime, que manipulou as eleições de 89 e elegeu Collor, e por tantos outros órgãos de mídia que chegaram ao cúmulo de publicar fotomontagens e notícias baseadas em boatos de internet para associar Dilma ao terrorismo. Eis exemplos do que há de mais condenável nessas instituições. Os blogs foram a principal forma da esquerda mostrar sua visão dos fatos e combater a doutrinação ideológica dos principais meios de comunicação do país. Talvez isto explique porque Serra defende a censura aos "blogs sujos" que contrariam seu ponto de vista.

Já pensaram na diferença entre a visão de mundo dos eleitores de Serra e de Dilma? O eleitorado tucano é predominantemente das classes A e B. Não se trata de serem pessoas mais cultas ou esclarecidas, visto que os grandes intelectuais do país apóiam Dilma. São, isso sim, classes privilegiadas que vivem uma realidade distante daquela vivida pela maioria da população. Gente cuja vida se limita aos limites dos condomínios e shoppings. Gente que tem nojo de pobre. Gente que se envergonha do Brasil porque aqui há muita pobreza, mas prefere continuar se envergonhando a permitir o avanço de programas sociais que promovam melhores condições de vida e aumento da renda da periferia.

Os eleitores de Dilma, ao contrário, se distribuem por todas as classes sociais, indo desde os maiores intelectuais brasileiros, que compreendem a necessidade de nosso pais combater a desigualdade social, há muito tempo além do limite do tolerável, até os pobres, outrora esquecidos pelo Estado, que agora vêem sua vida melhorar. Os programas de erradicação da pobreza no Brasil são elogiados e copiados mundo afora. A nova classe média, formada por pobres que ascenderam socialmente durante o governo Lula, está tirando cada vez mais gente da miséria e isso não é assistencialismo, é desenvolvimento social.

Com relação às eleições, devemos pautar nossa escolha pelo condidato que apresentar as melhores propostas e souber defendê-las nos debates, bem como demonstrar disposição para discuti-las e, eventualmente, modificá-las de acordo com o interesse coletivo. No entanto, o que vemos são ataques incessantes e cada vez mais apelativos à honra da candidata Dilma, que, tendo participado da luta pela democracia nos anos de chumbo, sido presa e torturada no DOPS, é tachada de terrorista (ecos de uma nostalgia da ditadura na campanha de Serra), enquanto o candidato tucano se mostra como um herói que lutou contra a ditadura (por correspondência, já que se autoexilou no exterior e não cumpriu nem mesmo seu mandato como presidente da UNE). Serra ainda teve a capacidade de negar o papel de sua adversária na luta contra o regime militar.

Dilma também tem feito ataques ao tucano, especialmente quando os ataques feitos a ela provocaram perda de votos da candidata petista, que tem todo o direito de se defender, seja desconstruindo as acusações feitas a ela, seja denunciando os podres do candidato adversário. Entretanto, ela também apresentou suas propostas, coisas que Serra não fez. É necessário ter o bom senso de escolher em quem votar com base nas propostas apresentadas, tendo como segundo critério a moral dos candidatos, revelada por suas atitudes com relação aos adversários. A democracia deve se pautar pelo respeito ao outro. Ataques gratuitos não contribuirão em nada para tornar mais esclarecedor o debate em torno da sucessão de Lula.

Lula deu exemplo de democracia durante seu governo, não interferindo uma única vez na atividade da imprensa, por mais que essa lhe tenha feito críticas sensacionalistas, tendenciosas e injustas. Durante a crise econômica, na qual o Brasil foi o último país a entrar e o primeiro a sair, a imprensa e os políticos tucanos acusaram Lula de estar agindo de maneira imatura e irresponsável e fizeram piada com a declaração do presidente de que no Brasil haveria uma "marolinha". É fato que nosso país cresceu durante a pior crise mundial das últimas décadas, que provocou caos em diversos países muito fortes economicamente e dotados de melhores meios de reduzir seus impactos. Torcer contra o Brasil em nome de um fanatismo ideológico é a prova de que essa gente não tem um pingo de amor ao país e só pensa em si mesma. Política não é futebol para escolhermos um time para torcer e comemorar quando o adversário perde um gol. Quando o governo comete um erro, todos nós pagamos por ele. O Estado é de todos e, fora das urnas, é nosso dever trabalhar por um país melhor independente de quem esteja no poder.

Lula comandou os trabalhadores brasileiros na luta pela redemocratização do país e, desde então, suas ações se pautaram pela defesa dos excluídos e pelo fortalecimento da democracia. Assim como Dilma, foi preso e torturado no período mais triste de nossa história. Mesmo sofrendo fortes ataques da revista Veja, o governo federal foi o principal assinante da revista, distribuída por bibliotecas e repartições públicas em todo o país. Quer atitude mais democrática do que essa? Você pode até não gostar de Lula, de Dilma e do PT, mas, se pode manifestar abertamente suas opiniões, agradeça a eles.

Voltarei a publicar neste blog somente depois da eleição. Até lá!

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Meio-ambiente

Uma questão importantíssima a considerar na hora de escolher em quem votar nas próximas eleições são as propostas para preservação do meio-ambiente. Eis as minhas considerações.

Em primeiro lugar, é necessário esclarecer que o partido do presidente sempre toma para si os ministérios que considera estratégicos para o desenvolvimento do país. Assim, ministérios de saúde, educação, agricultura, etc pertencem, tradicionalmente, ao partido do executivo. Já os ministérios cuja importância estrategica não é tão grande para o projeto do governante, acabam sendo entregues aos partidos aliados em troca de apoio no congresso.

O Ministério do Meio-Ambiente é um dos que costuma ser usado para barganhas políticas (no governo FHC, por exemplo, foi dado ao filho de Sarney em troca do apoio do PMDB). A única vez que isso não aconteceu foi durante o governo Lula, quando Marina Silva, à época, do PT, assumiu a pasta. Isto prova que o PT enxerga o setor ambiental como estratégico para o desenvolvimento do país.

Assim é que, durante o governo petista, graças ao trabalho de Marina Silva, houve uma grande redução nos desmatamentos da amazônia brasileira. Seu trabalho foi reconhecido e premiado internacionalmente. Seus atritos com Dilma foram algo absolutamente normal em política: os interesses das pastas conflitavam (Marina precisava lutar pela preservação, enquanto Dilma precisava cuidar de obras necessárias e urgentes para o Brasil avançar), algo absolutamente normal, sendo que normalmente, em situações como essa, o ministro do meio-ambiente precisa se calar para não perder a pasta, já que os interesses políticos em jogo se sobressaem aos interesses ambientais, uma vez que o ministério do Meio Ambiente, como já foi dito, costuma servir para barganhas políticas.

Mas Dilma, pintada como vilã da causa ambiental por cobrar urgência na execução de obras de impacto ambiental considerável, não teve outra escolha. Como ministra, era sua função cuidar de sua pasta e o Brasil estava prestes a entrar em um colapso energético e logístico graças aos baixos investimentos em infra-estrutura no governo FHC. Como presidente será responsável por coordenar a integração entre todas as pastas dos ministérios e certamente fará isso com competência.

Além disso, Dilma contribuiu muito com o meio-ambiente. Sua principal contribuição se deu através da Petrobrás, de cujo conselho diretor Dilma fazia parte. No governo FHC, com o objetivo de obter apoio popular para a privatização da estatal, a empresa foi sucateada a ponto de derramamentos de óleo serem frequentes. A empresa era chamada de "emporcalhobrás" por um grupo de humoristas. Quem não se lembra do afundamento da Plataforma P-36 na Bacia de Campos? Aquilo foi o ápice de uma série de ações cujo objetivo era convencer o brasileiro de que a empresa caminhava para a falência, devendo, portanto, ser privatizada. Ao mesmo tempo, se tratava de reduzir o valor de mercado da empresa para vendê-la a preço baixo, a exemplo do que foi feito com outras estatais. Quem pagou mais caro por essas ações absurdas do governo foi o meio-ambiente: grandes quantidades de óleo emporcalharam praias, rios e mares. Lula e Dilma, ao contrário, investiram na empresa, que cresceu muito e hoje é a empresa brasileira que mais investe em programas e pesquisas científicas ligados à preservação do meio-ambiente, além de patrocinar atividades culturais e esportivas por todo o país.

Enfim, há muito a ser dito sobre o trabalho do governo Lula em prol do meio-ambiente, mas a preocupação ambiental da Petrobrás e o tratamento dado ao ministério do Meio-Ambiente são, a meu ver, os dois pontos principais. Marina Silva permanece neutra neste segundo turno, por decisão própria, mas declarou que, dentre os dois candidatos, as propostas de Dilma são mais próximas às dela. Além disso, a filha de Chico Mendes, a juventude de PV e diversos diretórios do PV em vários estados brasileiros apóiam a candidata petista. Quer reconhecimento maior do que este? Por outro lado, pesquise: qual candidato os latifundiários apóiam?

Encerro este artigo por aqui porque desejo informar o meu leitor sobre um boato que circula por aí, alegando que Marina declarou apoio a Serra. Trata-se de uma mentira deslavada, conforme se pode perceber lendo esta nota: http://www.espalheaverdade.com.br/2010/10/27/e-mail-com-falso-texto-de-marina-circula-pela-rede/

Uma nova versão do boato surgiu recentemente em um blog pró-Serra. O blog usa um leiaute muito parecido com das páginas oficiais do candidato e cita a Agência Estado como fonte, sem ter link para a fonte. Fiz uma busca na paǵina da referida agência de notícias e outra no google, em ambos os casos, não encontrei tal informação. Fique atento e não acredite em tudo o que dizem por aí. É o desespero dos tucanos que vêem a Dilma crescer nas pesquisas às vésperas das eleições e querem derrubá-la a qualquer custo. Pesquise sempre!

Acabo de ler a seguinte notícia no blog de Marina Silva: http://www.minhamarina.org.br/blog/2010/10/nao-usem-meu-nome-para-o-vale-tudo-eleitoral-repreende-marina/. Eis mais um desmentido dos boatos, dessa vez por ela mesma.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Querem repetir 89.

É muito grave a denúncia de Marilena Chauí sobre uma possível armação de militantes tucanos que pretenderia, trajando camisetas e portando bandeiras do PT, atacar pessoas "para tirar sangue" durante o comício de Serra em São Paulo no próximo dia 29, antivéspera da eleição e último dia de campanha, quando o PT não terá tempo nem meios para responder à acusação de estar por trás da agressão, que o PIG certamente mostraria e condenaria. http://www.youtube.com/watch?v=F52srp0SImE.

A própria filósofa alerta para a semelhança entre este fato e o sequestro de Abílio Diniz às vésperas das eleições de 89, quando a polícia obrigou os sequestradores a vestirem camisetas do PT para a imprensa fotografá-los.

Contudo, o que mais marcou as eleições de 89 foi, certamente, o compacto do debate da TV Globo, transmitido ao vivo de madrugada, quando a população dormia, e depois exibido no horário nobre como um compacto com o melhor de Collor e o pior de Lula. Este fato, aliado à máquina de propaganda da Globo e à farsa montada para ligar o PT ao sequestro do empresário custou a vitória a Lula naquelas eleições. A Globo de hoje não tem o mesmo poder de antes, mas o episódio da suposta fita que teria atingido Serra é uma prova de que ela continua mascarando a verdade com o objetivo de influenciar o eleitorado brasileiro. Além disso, se a Globo sozinha não tem a cacidade de repetir 89, o PIG tem: os maiores e mais poderosos órgãos de mídia do país estão unidos contra o PT e, juntos, são tão poderosos quanto a Globo de 21 anos atrás.

A direita tem usado as mesmas fórmulas que sempre usou em situações como essa: além da imprensa, algo que sempre pertenceu à direita, espalham o medo e a mentira. Às vésperas do primeiro turno, por exemplo, Dilma estava com a eleição ganha no primeiro turno, mas a direita, em manobra desesperada, lançou um pacote de ações que incluiu boatos na internet e distribuição de panfletos falsos atribuídos à CNBB orientando os católicos a não votarem em Dilma. Não houve tempo de desmentir, mas a CNBB emitiu nota, após o primeiro turno alegando que "não impôs veto a candidatura alguma nem produziu nenhum panfleto ou carta contra a candidata Dilma Rousseff" (http://www.espalheaverdade.com.br/2010/10/17/pega-na-mentira-cnbb-nao-assina-panfletos-nem-cartas-contra-dilma/). Assim, tais panfletos são obra de gente que quer manipular o povo, tendo a mentira e o "amedrontamento" como armas).

O que esperar para esta semana, a última antes do segundo turno, além de algo parecido? Não se tem feito nenhuma manobra com o intuito de atingir Dilma desde a gafe do rolo de fita. Está uma semana muito tranquila, nem parece que falta menos de uma semana para irmos às urnas. O que devemos esperar que aconteça nos próximos dias? Certamente a mídia e o PSDB têm algum plano pronto que vai estourar imediatamente antes da eleição, sem dar tempo nem condições para que o PT se defenda. Se não for a pancadaria durante o contato de Serra com seus eleitores paulistas, será alguma outra coisa, que pode ir desde um escândalo político até a explosão de uma bomba. O que se pretende é amedrontar a população às vésperas da eleição, para que ela, de alguma forma, seja seduzida pelo discurso tucano.

Vivemos em um país democrático e este comportamento da mídia e da coligação de Serra é absolutamente anti-democrático, assim como são antidemocráticas as pancadarias promovidas pela tropa de choque paulista, a mando de Serra, contra grevistas e manifestantes. Assim como são antidemocráticas as ações da mídia ao mostrar opiniões como fatos e dando voz somente a um dos lados. Assim como é antidemocrática a tentativa de subir ao poder valendo-se da boataria, de agressões fabricadas, de panfletos caluniosos sobre Dilma. O povo deve eleger seus governantes de maneira consciente e com base no projeto que cada um tem para o Brasil (aliás, o que Serra pretende fazer como presidente? Até agora ele só prometeu um aumento no salário mínimo e na bolsa-família, conflitante com a outra promessa, de que enxugaria as contas públicas, sem explicar como).

Um presidente eleito através da manipulação da opinião pública não é legítimo e pode nos levar a outro episódio tão triste quanto o do impeachment de Collor, primeiro presidente eleito pelo povo brasileiro após a constituição de 1988.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Conhecer a opinião dos outros

Hoje não escreverei meu texto diário. Decidi colocar aqui, ao invés disso, um link para um texto, extenso, mas muito bem organizado e dividido em tópicos, com links que comprovam o que está sendo dito, o que é louvável em meio a tanto disque-disque que infesta a internet, a televisão e até os jornais. Eis o texto que recomendo: http://www.idelberavelar.com/archives/2010/10/para_voce_eleitor_indeciso_por_ricardo_lins_horta.php

Além disso, descobri, no youtube, uma série de vídeos de Marilena Chauí sobre o segundo turno das eleições. Com a palavra, uma das mais eruditas e respeitadas intelectuais brasileiras (após assistir a este vídeo, veja as 2a, 3a e 4a parte da entrevista clicando nos links à direita do vídeo): http://www.youtube.com/watch?v=0j6jgDs7gMQ&NR=1


Cito aqui o que o escritor Fernando Morais disse no ato de intelectuais em apoio a Dilma, na semana passada: "Sou Dilma porque conheço José Serra há 30 anos e sei o mal que esse sujeito pode fazer ao Brasil".

Para descontrair, segue o segundo vídeo da série #votonoserrapq, (http://www.youtube.com/watch?v=LHkwrNjHRp8&feature=related) com participação de Christovam Buarque comentando a bolinha de papel. Quem ainda não viu o primeiro vídeo, eis o link: http://www.youtube.com/watch?v=obuafIUdG30&feature=related.

Até breve!

domingo, 24 de outubro de 2010

A farsa do superministro da saúde

Há quem diga que Serra foi um excelente ministro da saúde, mito que eu pretendo colocar em xeque com estes breves apontamentos.

Primeiramente, o governo FHC teve dois ministros da saúde. O primeiro deles foi o Dr. Adib Jatene, médico competente e profundo conhecedor dos problemas da saúde pública no Brasil. Excelente ministro do qual poucos se recordam. O governo Itamar Franco já havia controlado a dengue no país, mas ele, percebendo que a continuidade das políticas preventivas era necessária para impedir uma nova epidemia (como aquela gravíssima ocorrida no início dos anos 90), formou um grupo de trabalho para discutir formas mais eficazes de controlar o Aedes aegypt.

Também em sua gestão, a exemplo do que já vinha sendo feito em gestões anteriores, o Dr. Adib Jatene manteve a questão da AIDS como um tema central, incentivando o uso da camisinha, bem como sua distribuição gratuita nos postos de saúde, e estudou formas de dar tratamento aos aidéticos pelo SUS, visto que os medicamentos eram muito caros.

Contudo, o orçamento era apertado e a saúde pública estava um caos. Foi então que ele batalhou arduamente com o congresso nacional para aprovar a CPMF, imposto provisório que iria triplicar o orçamento do ministério, permitindo grandes avanços na recuperação do sistema público de saúde. Obteve sucesso, mas aí algo estranho aconteceu: o presidente FHC o substituiu por José Serra, para que este colhesse os frutos do trabalho do Dr. Jatene, obrigado a deixar o ministério com baixa aprovação popular por ser associado ao novo imposto. O novo ministro, cuja imagem até então estava preservada, pegou a parte fácil do trabalho: orçamento triplicado, vários projetos importantes da área de saúde tramitando no congresso, dentre eles a lei dos genéricos, que Serra só precisou assinar e sair por aí dizendo que era seu. Enquanto seu antecessor ficou conhecido como "o ministro da CPMF", Serra recebeu o título de "ministro dos genéricos".

Mesmo com um orçamento triplicado, Serra não se conteve: queria cortar gastos em alguma coisa e cancelou adivinha o quê? O plano do dr. Jatene para controlar o Aedes Aegypt. Resultado: na virada do milênio a dengue voltou com força total. A febre amarela demorou um pouco mais e acabou chegando no início do governo Lula, mas aí, dizem os tucanos, já não é culpa de Serra, mas, como ele próprio costuma dizer, "coisa do PT".

Dar tratamento aos aidéticos com tanta verba assim foi fácil. Os genéricos já estavam aprovados no congresso. Jatene já tinha deixado tudo pronto. Então Serra resolveu fazer algo de seu pela saúde pública, afinal, tinha dinheiro para gastar e a saúde pública necessitava de ambulâncias. Então passou a distribuir ambulâncias Brasil afora até o fim de seu mandato, atividade que continuou durante algum tempo no governo Lula. Mas, quando o esquema de compra dessas ambulâncias foi revelado, Serra, modesto, não fez questão de ter sua autoria reconhecida, afinal, tendo se apoderado do trabalho do ministro anterior, seria de bom tom dar os créditos de seu trabalho a seu sucessor. Nada mais justo.

Outro mérito de Serra foi ter se tornado o primeiro ministro da saúde a assinar uma lei permitindo o aborto em hospitais públicos, sem se importar com a reação negativa por parte de igrejas cristãs, como prova este discurso inflamado do finado padre Léo na Canção Nova: http://www.youtube.com/watch?v=EdNJwnN_vV0&feature=fvst. Interessante perceber a coerência dessas igrejas que, pregando o perdão, souberam perdoar Serra e hoje apóiam sua candidatura.

Por fim, Serra se gaba de ter feito, como governador de SP, 300 hospitais. E reclama que o governo Lula não construiu hospital nenhum. Quantos hospitais o governo FHC construiu, mesmo com toda aquela grana da CPMF? Nenhum também. A razão é que a responsabilidade pela construção de hospitais é dos governos estaduais. A responsabilidade do governo federal na saúde se limita à elaboração de normas e planos desenvolvimento para o setor, além do repasse de verbas para os governos estaduais e municipais construíres hospitais, equipa-los, comprarem materiais, remédios, etc. Comparar uma gestão do governo estadual com outra do governo federal é tratá-los como dois governos paralelos e concorrentes em um mesmo país, e não como duas esferas de um mesmo governo, que deveria dividir responsabilidades e trabalhar de maneira integrada.

sábado, 23 de outubro de 2010

C&T e ensino superior.

Alguém já viu uma superpotência não ter tecnologia de ponta? Em algum momento da história da humanidade, um país tecnologicamente menos evoluído conseguiu ter grande influência diplomática?

Pois bem, durante o governo FHC, a política para pesquisa científica se baseava na idéia de que importar tecnologia seria mais barato do que desenvolvê-la. Não está errado. De fato, considerando o atraso tecnológico do Brasil em algumas áreas, a importação de tecnologias estrangeiras se torna mais viável economicamente. Mas há outras questões a ser discutidas além do custo, as quais foram, no entanto, desprezadas por um governo que só se preocupou com balanço de caixa, sem atentar a questões estratégicas.

Qualquer país promissor investe pesado em educação, ciência e tecnologia. Sem isso nenhum país avança. Já me referi, em outra ocasião, ao fato de que as empresas brasileiras mais competitivas no mercado internacional são justamente aquelas que possuem as mais modernas tecnologias em seus respectivos setores, como é o caso da Embraer e da Petrobrás. Enquanto isso, muitas empresas brasileiras penam para competir com concorrentes estrangeiras que possuem tecnologia mais avançada e estão, portanto, mais preparadas para oferecer produtos diferenciados ou preços melhores a seus clientes.

Aliás, a famosa "fuga de cérebros" existente no Brasil foi justamente causada por essa lógica de fazer pesquisa da forma mais barata: os militares, quando decidiram investir pesado em pesquisa científica durante o período do milagre econômico brasileiro, quiseram fazer isso da forma mais barata possível (e dinheiro não faltava): criando cursos de pós-graduação, para que os pós-graduandos das universidades fizessem pesquisa a preços módicos (uma bolsa que é uma merreca comparada ao salário de um cientista) e sem direitos trabalhistas. A conseqüência disso é que o país passou a formar uma grande quantidade de doutores extremamente qualificados sem ter uma indústria de base tecnológica para absorvê-los, ao contrário do que acontece nos países hegemônicos e em alguns emergentes.

Conceber o setor de C&T como um gasto supérfluo e não como investimento necessário para o desenvolvimento do país é errôneo. Não podemos ficar a mercê de tecnologia externa, cuja importação pode nos ser negada a qualquer momento devido a algum conflito diplomático ou mesmo qualquer desculpinha de algum governo ou megaempresário estrangeiro.

Creio que o PT compreendeu isto, e durante o governo Lula o investimento em ciência e tecnologia aumentou consideravelmente, com mais verbas para o Ministério da Ciência e Tecnologia. As bolsas de iniciação científica e de pós-graduação não só aumentaram em quantidade, mas também seus valores, congelados desde 1995 (quando FHC reduziu o valor das bolsas ao invés de aumentá-lo), foram aumentados. Continuam baixos, mas não tão baixos como antes.

Foram criadas 14 novas universidades federais em locais estratégicos. O Vale do Jequitinhonha, por exemplo, uma das regiões mais pobres do país, agora tem universidade federal. E não seria esse o melhor caminho de desenvolver aquela região? Moro em um pólo tecnológico e sei bem como a existência de mão-de-obra bem qualificada e de pesquisa científica atraem empresas, gerando empregos e renda para a região. Além disso, é fácil identificar, dentro das secretarias municipais de cidades próximas a universidades públicas, diversos docentes dessas instituições ocupando cargos-chave no planejamento de políticas públicas. Quem ganha é o povo.

E por falar nas federais, conheço diversos pesquisadores que dependiam de bolsas para viver e estavam inseguros quanto a seu futuro profissional, visto que as universidades não estavam contratando, embora tivessem déficit no número de docentes. Vi pesquisadores talentosos abandonarem a carreira para ocupar um cargo baixo na burocracia ou em alguma empresa, porque precisavam de emprego e não encontravam possibilidades. De repente vi, no meu instituto, o governo federal passar a peneira e levar embora diversos peixes graúdos: excelentes pesquisadores que hoje são docentes de universidades federais.

Enquanto isso, o primeiro ato de Serra ao assumir o governo paulista foi criar uma nova secretaria de maneira ilegal: não podendo criar uma nova secretaria sem autorização dos deputados estaduais, ele renomeou a Secretaria de Turismo para Secretaria de Ensino Superior, e esta deixou de tratar de turismo para tratar de outra área, para a qual seus funcionários não tinham a devida qualificação, já que eram todos especialistas em turismo. Enfim, uma secretaria para inglês ver, de turismo, em termos legais, mas de ensino superior na prática. Esse ato é preocupante porque desvincula as atividades de ensino, pesquisa e extensão, bem como cria um abismo ainda maior entre as políticas educacionais para os níveis fundamental, médio e superior.

Serra se vangloria de ter ampliado o ensino técnico em SP. Ampliou sim, mas naquela comcepção típica do PSDB: um profissional é formado a partir de giz e lousa. As escolas técnicas paulistas estão em situação cada vez mais precária financeiramente, tiveram aumento de alunos, mas não de verbas, há, em muitas delas, falta de professores, além de muitas não terem laboratórios, ou não terem materiais, ou mesmo estarem impossibilitadas de substituir ou modernizar equipamentos quebrados ou obsoletos. Outro detalhe importante é a extinção dos CEFAMs (Centros Estaduais de Formação e Aprimoramento do Magistério), transformados em escolas técnicas. Onde os professores da rede pública farão cursos de aprimoramento agora? Por fim, o mais grave: salas de aula de escolas estaduais comuns estão sendo usadas para a educação técnica, sem os investimentos necessários para se adequar o espaço à realidade de um outro tipo de formação (aliás, o que são as salas-ambiente das escolas estaduais paulistas? Um bando de cartazes colados na parede? São salas-ambiente para inglês ver).

Reconheço que, a nível federal, em certos aspectos o avanço não foi muito grande: o valor de uma bolsa de mestrado, por exemplo, é inadequado ao custo de vida de diversas cidades brasileiras. Além disso, as universidades federais continuam tendo déficit de docentes e pouca verba. Porém, se certos problemas não foram solucionados, pelo menos seus efeitos negativos foram minimizados e se caminha no rumo certo, enquanto em SP houve retrocesso: universidades estaduais com orçamentos mais apertados, menos docentes e ameaças a sua autonomia. Serra foi o primeiro governador, desde Maluf, a nomear um reitor diferente daquele indicado pela comunidade acadêmica para a reitoria da USP, mesmo universidade que, no ano passado, foi atacada pela tropa de choque de Serra com bombas e cacetetes, agredindo alunos, funcionários e docentes. E ele ainda se considera democrático. Talvez, para ele, democracia signifique impor obediência a todos, ainda que pelo uso da força.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O eleitor cordial.

Diante dos acontecimentos dos últimos dias, me vi obrigado, novamente, a discutir a questão do homem cordial buarqueano. Primeiramente, peço a quem não conhece a definição de Sérgio Buarque de Holanda para o homem cordial, que leia este texto antes de prosseguir: http://vermelhosobreazul.blogspot.com/2010/10/o-brasileiro-um-homem-cordial.html.

Pois bem, às vésperas do primeiro turno, e-mails caluniosos sobre Dilma e uma suposta orientação da CNBB, mais tarde desmentida por ela própria, para que os católicos não votassem em Dilma abalaram as convicções de uma parcela expressiva do eleitorado. O resultado foi o que se viu: Dilma, que segundo as pesquisas iria vencer já no primeiro turno, foi bem menos votada. Foi uma jogada muito inteligente da oposição abalar emocionalmente as pessoas a poucos dias da eleição, sem dar tempo para que o adversário se defenda nem para que a polícia investigue denúncias veiculadas pela mídia no calor da hora.

Eis a exploração do lado ruim da cordialidade brasileira, algo que não é novo no Brasil: foi exatamente dessa maneira que a direita conseguiu impor sua vontade ao povo em sucessivos golpes de estado, como o famoso plano Cohen, que amedrontou a população e a induziu a aceitar uma ditadura de Vargas achando que assim estaria livre de uma ameaça comunista que, hoje se sabe, jamais existiu. A mesma idéia de ameaça comunista serviu para fazer o brasileiro aceitar calado o golpe de 64, que instituiu a mais terrível ditadura da nossa história. E o que é que a mídia tem feito desde a escolha de Dilma para ser candidata do PT nesta eleição? A associou ao comunismo, mas não adiantou, pois o povo sabe que o muro de Berlim já caiu há muito tempo. Então a acusaram de ser uma terrorista sanguinária, na tentativa de impor medo à população e induzi-la a votar em Serra. Algumas pessoas se convenceram disso, mas a maioria percebeu que a conduta exemplar da ministra ao longo dos últimos oito anos não é compatível com o terrorismo. Então veio o apelo religioso, divulgaram que Dilma é atéia, alguns a acusam até mesmo de satanismo, enquanto Serra é cristão (mesmo depois de ter assinado em 98, como ministro da saúde, documento legalizando o aborto). Dilma é separada, enquanto Serra tem uma família de propaganda de margarina (segundo a mídia). Dilma é a favor do aborto, Serra é contra (quem foi que assinou aquela lei mesmo...?). E assim os ataques prosseguem, apelando a assuntos que nada têm a ver com a função de um presidente da república. Por que motivo fazem isso? Porque sabem que o brasileiro é cordial e esses temas mexem com emoções e valores morais das pessoas.

Assim, vendo que o povo já não se deixa manipular tão facilmente e que certas estratégias do passado já não funcionam, a direita tratou de buscar estratégias extremas para voltar ao poder: estratégias de marketing e de inteligência militar das mais sujas, conforme se pode ver neste artigo de Rodrigo Vianna: http://www.rodrigovianna.com.br/plenos-poderes/as-cinco-ondas-da-campanha-contra-dilma-sao-tecnicas-de-contra-informacao-militar.html.

O referido artigo cita um outro, muito interessante e que merece ser lido com calma e atenção: um repórter com experiência em jornalismo investigativo conseguiu, usando o google, descobrir de onde partiu um e-mail calunioso contra Dilma: http://www.rodrigovianna.com.br/plenos-poderes/boateiro-tem-nome-e-sobrenome-email-contra-dilma-partiu-de-gente-ligada-a-extrema-direita.html. Trata-se de Nei Mohn, conhecido ativista de extrema-direita, que foi presidente da Juventude Anti-Comunista (mais conhecida como Juventude Nazista) em 1968, suspeito de atos terroristas e de falsificação de um jornal da Igreja Católica, bem como de ter torturado três crianças, filhas de sua ex-mulher. Todas estas informações foram publicadas em revistas de circulação nacional na década de 80, e podem ser consultadas em um acervo digitalizado da Universidade Federal de São Carlos:

Sei que, aparentemente, parece ser uma teoria conspiratória maluca, como tantas que há por aí, mas, tendo um conhecimento razoável da história do Brasil, especialmente das relações de poder, é fácil perceber que, infelizmente, isso pode sim ser real. Já vimos, às vésperas do primeiro turno, uma mídia furiosa atacar Dilma com todas as suas forças, soltando um monte de denúncias que pareciam ter sido preparadas especialmente para a ocasião. Não me surpreenderei nenhum pouco se estourarem escândalos, acontecerem supostos atentados para incriminar o PT ou qualquer coisa do tipo. Isso já aconteceu no Brasil em outras épocas e está acontecendo novamente.

O que foi todo aquele teatro sobre um suposto rolo de fitas adesivas lançado contra Serra? A Dilma, atacada por um militante tucano com uma bexiga cheia de água, não quis fazer uso político disso, enquanto a Globo mostra uma imagem de péssima qualidade onde se vê um borrão que um perito analisou e concluiu que era somente um artifact de compressão de vídeo (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/professor-confirma-armacao-da-globo. Ainda não se convenceu? Veja isto: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/os-cinco-erros-de-molina). Além disso, volto a insistir, por que Serra não fez exame de corpo de delito, nem fez BO? E onde foi parar o artefato, a prova do crime? E o machucado na careca de Serra, cadê? Nunca vi ninguém se machucar ao ser atingido por um objeto desses nem precisar fazer tomografia depois disso. O que sei é que, sendo o Dr. Jacob Kligerman um grande amigo de Serra, é bem provável que tenha feito esse favorzão em troca do ministério da saúde caso o Serra for eleito.

O fato é que, em outros países, as pessoas não costumam mudar sua intenção de voto só porque um candidato sofreu uma agressão, afinal, o fato de um homem ter sido atingido na cabeça por uma bola de papel não nos informa nada a respeito de sua aptidão para ser presidente da república. Ou será que alguém contrataria um funcionário usando como critério quantas agressões ele recebeu ao invés de sua competência para o trabalho?

Acredito que este episódio pode ter sido combinado, talvez a bolinha tenha sido lançada pelos próprios militantes tucanos só para manchar a imagem do PT, que por sinal, nada tem a ver com atitudes individuais de seus membros ou simpatizantes. Hoje sabemos que durante a ditadura militar o governo realizava atentados terroristas para culpar grupos de esquerda, usando a Rede Globo como sua principal máquina de propaganda. A direita brasileira sabe muito bem como amedrontar a população e culpar a esquerda, afinal, é diplomada na Escola das Américas.

Por isso ando preocupado, pois sei que alguma bomba vai estourar (pode até ser que estoure literalmente) às vésperas da eleição.  Talvez seja só um dossiê ou uma denúncia de corrupção no governo, como é de praxe, mas temo que haja uma apelação, talvez a maior já vista no Brasil até agora, para causar pânico. A direita já mostrou que não está para brincadeira e com certeza já tem algo preparado para amedrontar os eleitores e prejudicar o PT. Só espero que o PT tenha percebido isso e se preparado para remediar a situação.