quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Wikileaks: a luta por aquilo que o mundo tem direito de saber.

Recentemente, a página Wikileaks (http://213.251.145.96/) causou furor em todo o mundo por revelar documentos que autoridades mundiais e pessoas poderosas querem esconder a todo custo.

Graças ao Wikileaks, hoje sabemos que Abu Graib foi uma gota d'água no oceano de crimes que as forças armadas dos EUA cometem no Iraque. O nosso ministro da Defesa, Nelson Jobim, foi desmascarado: trabalha em defesa dos interesses dos interesses ianques e critica a política externa brasileira sempre que esta contraria os interesses estadunidenses (http://www.conversaafiada.com.br/mundo/2010/11/30/escandalo-jobim-e-ministro-da-defesa-dos-eua/). Essas são só algumas das muitas notícias que vieram à tona, muitas delas oriundas de redações de jornais que, com sua censura interna, impedem que informações de interesse público sejam veiculadas caso contribuam negativamente para a imagem de algum de seus protegidos.

Embora não seja crime divulgar dados de interesse público, a Wikileaks tem sido vítima de uma reação violenta da justiça(?) internacional: seu fundador foi preso na inglaterra, a página foi retirada do ar e operadoras de cartões de crédito, que permitem doações para organizações racistas e nazistas, decidiram impedir seus clientes de doar dinheiro para o Wikileaks.

Por que tanto ódio? Autoridades estadunidenses afirmam que a página viola dados sigilosos. Mas aí entra-se em uma outra questão: os dados divulgados são de interesse público e dizem respeito a questões políticas, e, portanto, que não podem ser consideradas sigilosas, já que o governo é mantido pela sociedade e deve prestar contas a ela. O cidadão tem o direito de saber.

Assim, cabe a nós, cidadãos do mundo, lutarmos pelo acesso público desses dados. Há um abaixo-assinado contra a proibição do Wikileaks: http://bit.ly/eumXac. É importante que todos assinem. Precisamos mostrar ao mundo a nossa força e lembrar aos líderes mundiais que quem manda é o povo, e não eles que ficam perseguindo um paladino da democracia enquanto fingem que não vêem grupos racistas, xenófobos, homofóbicos, etc que se tornam mais fortes a cada dia e divulgam impunemente suas doutrinas, muitas vezes com apoio governamental.

Os documentos do Wikileaks estão sendo divulgados em páginas-espelho e disponibilizados em torrents. Acredito que a semente germinou e não conseguirão impedir a planta de crescer. De qualquer forma, é importante que lutemos pela página, por sua importância simbólica.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Liberdade de imprensa nem um pouco ameaçada.

Me diverti muito ao ler esta entrevista hoje cedo: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101122/not_imp643479,0.php. Trata-se de uma entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo, um dos maiores críticos à regulação da imprensa, que considera censura, pela consultora da UNESCO Eve Salomon.

Em primeiro lugar, é interessante notar a posição do jornal, que elabora as perguntas de forma a direcionar as respostas a um sentido favorável à opinião de que as mudanças são parte de um processo de censura, mas as respostas são brilhantes e fogem das armadilhas do jornal, que saiu derrotado nesta entrevista.

Não há nada de errado no fato do governo reclamar da mídia, pois esta, de fato, está longe de ser considerada um exemplo de jornalismo ético, comprometido com a verdade e a imparcialidade. Quando os principais órgãos de mídia adotam uma mesma posição política, é necessário algum tipo de intervenção que não os cale, mas garanta o direito de resposta às partes atingidas. Cada um tem o direito de se defender das críticas que recebe, mas esse direito, garantido pela constituição, é desrespeitado diariamente.

Um exemplo, uma certa revista semanal já publicou, em diversas ocasiões, reportagens desfavoráveis ao esperanto que reforçam clichês e deduções distantes da realidade, mas convincentes para um leigo. As reportagens, obviamente, geraram reações por parte da comunidade esperantista brasileira e estrangeira, que enviou diversas mensagens à redação desta revista. Quantas foram publicadas? Nenhuma. É um caso isolado? infelizmente está longe de ser.

E o que falar das recentes CPIs dos Correios e da Petrobrás? Quanto dinheiro público foi gasto nesses shows de demagogia que só serviram para mostrar que não havia nada de errado com essas empresas? Que escândalo os jornais fizeram! Quantos ortigos os Diogos Mainardis de plantão escreveram metendo o pau no governo com base no diz-que-diz-que? E quantos comentários dos comentaristas de TV? No fim, quando foi tudo apurado, a imprensa, que havia tomado partido em favor dos derrotados, não mostrou os fatos que estavam ali apurados cuidadosamente por pessoas autorizadas, e não por boateiros de jornal.

Um ponto importante que a mídia ignora a respeito da regulação é a forma como a punição é aplicada: no caso de censura, o órgão é impedido de publicar algo (assim como estes mesmos órgãos impedem, e portanto censuram, a publicação de certas cartas ou de artigos de colunistas que discordam do ponto de vista de seus superiores). O que se quer fazer no Brasil é criar agências reguladoras que não impeçam a reportagem de ser publicada, mas intervenham no sentido de garantir o direito de resposta das partes atingidas, bem como proteger a privacidade das pessoas, as crianças e a diversidade de opiniões. Isso é bom para o desenvolvimento da nossa democracia, que, como Sérgio Buarque já observava há quase um século, em nosso país sempre foi confundida com liberalismo.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Ensino do esperanto nas escolas.

Recentemente a mídia voltou a dar destaque à notícia de que há mais de 250 projetos de lei sobre educação tramitando no Congresso Nacional. Esse dado, por si só, não nos indica se isso é bom ou ruim, pois deve-se analisar também o mérito dos projetos, pois há, por exemplo, vereadores que se gabam de ser os que mais apresentam propostas, mas o que eles propõe? Mudanças de nomes de ruas, homenagens bestas a qualquer médico ou advogado falecido, distribuição de títulos de cidadão-qualquer-coisa para qualquer Dito Cujo que "prestou enormes serviços à população fritando coxinha no bar da esquina".

Analisemos o mérito dos projetos: bitolados por uma educação rígida e massacrante, jornaistas que não enxergam um palmo diante do nariz enchem suas reportagens de pré-julgamentos negativos. Assim, propostas como o ensino de xadrez, educação para o trânsito, educação ambiental, maior variedade de disciplinas eletivas de línguas e educação financeiras são logo atacadas por pessoas que não se deram o trabalho de ler as justificativas apresentadas pelos relatores nem o de se informar sobre o assunto com setores da sociedade favoráveis a tais projetos.

Há estudos que mostram, por exemplo, que xadrez contribui para o desenvolvimento do raciocínio lógico e da visão espacial. Educação para o trânsito é imperativa no ensino fundamental, pois pedrestres e ciclistas não fazem CFC, mas, pelo menos segundo o nosso código de trânsito, também estão sujeito a multas e são obrigados a conhecer a legislação. Com relação à educação ambiental, tenho o exemplo de um grupo de crianças de uma escola municipal que vi, há pouco tempo, desperdiçando copos descartáveis. Ao abordá-las para perguntar o que elas achavam da questão ambiental referente aos copos, elas simplesmente responderam "não tem problema ambiental nenhum, pois estes copos irão para a reciclagem". É ou não é necessário fazer um trabalho de conscientização sobre o meio-ambiente nas salas de aula? E assim há muito exemplos mais de como são falsos esses pré-julgamentos dos jornalistas que têm, em última instância, o objetivo de reduzir a discussão ao campo moral, ao mostrar os parlamentares como pessoas que só se preocupam com futilidades, ao invés de estimular o povo a refletir criticamente sobre as propostas. Assim, a mídia manipuladora mantém o seu papel de patrocinar o analfabetismo político do povo brasileiro.

O projeto apresentado como o cúmulo da excentricidade, no entanto, é o projeto de lei do senador Cristovam Buarque, docente da UnB e grande especialista em educação, sobre o ensino do idioma esperanto. Sempre acompanhadas de clichês como "o esperanto fracassou", "é uma língua que ninguém fala" ou simplesmente "é algo inútil". Pois bem, falo esperanto desde 2006, dou aulas deste idioma desde 2007 e é a língua que mais uso depois do português: além de usar o Facebook em esperanto, diariamente mantenho contato com amigos estrangeiros e recebo notícias sobre assuntos variados neste idioma, que ocupa o terceiro lugar no ranking mundial de distribuição geográfica de línguas: somos poucos falantes, mas estamos bem espalhados pelo mundo e conseguimos localizar outros falantes com facilidade. Além disso, o esperanto é a principal ferramenta que disponho para ter contato com culturas estrangeiras, sendo que li em esperanto quase tudo o que conheço de literatura africana, chinesa, holandesa e do leste europeu. Aliás, estou lendo o livro Du Virinoj (Duas mulheres), do escritor holandês Harry Mulisch, sem tradução para o português, e o mérito literário da obra superou muito as minhas espectativas.

No entanto, outro dia fui ao banco pagar minha inscrição no Congresso PanAmericano de Esperanto (TAKE), que acontecerá em São Paulo no ano que vem, e a funcionária do caixa me perguntou se eu acredito que o esperanto será universal. Claro que não acredito, pois se através dele mantenho contato com culturas estrangeiras, isso prova que ele já é universal, embora seja pouco usado pelas instituições diplomáticas e na comunicação empresarial e não conste nos manuais multilíngues de aparelhos eletrônicos. O que falta para o esperanto ser valorizado pelo mercado é apenas apoio político, mas os governos preferem insistir em usar seu poder político para legitimar suas línguas nacionais, favorecendo uma comunicação internacional que privilegia alguns em detrimento de outros. Assim, atualmente o esperanto aproxima pessoas sem aproximar mercados. Por fim, está comprovado que o conhecimento do esperanto facilita o aprendizado de outras línguas.

Quem quiser saber mais sobre o esperanto, sugiro que assista aos vídeos da série Esperanto Estas, disponíveis na internet, no seguinte endereço: http://esperantoe.blogspot.com/. Quem quiser aprendê-lo de forma autodidata, uma boa opção é a página Lernu: http://pt.lernu.net/.

Acho muito importante que novas disciplinas eletivas sejam introduzidas no currículo escolar, bem como que este se torne cada vez mais flexível para que o aluno possa se identificar cada vez mais com o que estuda e ter espaço de levar para o ambiente escolar tudo o que aprende fora da escola e vice-versa. Assim, a evasão escolar certamente irá diminuir e os estudantes se dedicarão mais aos estudos, algo que não vem acontecendo justamente porque os muros das escolas não impedem apenas o fluxo de pessoas entre a escola e o mundo, mas barram também o fluxo de conhecimento.

sábado, 6 de novembro de 2010

Dia do Nordeste

Em resposta aos ataques dirigidos ao povo nordestino após a eleição de Dilma, brsileiros de todos os cantos participam do Dia do Nordeste, uma campanha iniciada e centralizada no Facebook, para discutir a importância do nordeste, suas belezas naturais e sua riqueza cultural que nos encanta e surpreende.

A canção Paratodos, de Chico Buarque (http://www.youtube.com/watch?v=OgqerejOJdc), nos dá uma idéia da importância desta região do Brasil: grandes intelectuais e artistas do sul e do sudeste descendem de famílias nordestina, com ele próprio (Sobre isto, ver Bartolomeu Buarque de Holanda. Buarque: Uma família Brasileira: Ensaio histórico-genealógico. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2007). A letra de Paratodos, além de discutir a herança genética nordestina, presente em quase todos os brasileiros, também discute a importância desta região para a formação de nossa cultura. Nordeste é terra de Caymmi, João Gilberto, Jackson do Pandeiro, Hermeto Paschoal, Betânia e tantos outros grandes nomes da nossa música.

Mas a riqueza cultural do nordeste vai muito além do baião, do xote, do trio elétrico, dos frevos, maracatus, maculelês e tantos ritmos e danças típicas. A culinária nordestina é riquíssima, e as bebidsa típicas da região são igualmente variadas e deliciosas. Gilberto Freyre, ao discutir a formação cultural do Brasil, sempre enfatizou a importância do nordeste neste processo, bem como recheou seus livros com receitas deliciosas da culinária nordestina. E Gilberto Freyre, pernambucano, é um dos maiores intelectuais de nosso país, que, nas horas vagas, se dedicava à fabricação (e à degustação também) de licor de pitanga, outra maravilha do nordeste.

E o que dizer, então, de poetas como Zé Limeira, o poeta do absurdo, maior repentista do sertão da Paraíba e de tantos outros escritores que se dedicam à literatura de cordel, tão nordestina e tão especial, única e atual? As capas do folhetins de cordel são decoradas com xilogravuras típicas do nordeste, e discutem o modo de vida do nordestino, política, lendas e mitos brasileiros e tudo o que se pensar em termos de atualidades. O cordel tem uma riqueza que nos encanta e surpreende. E na poesia tradicional, o nordeste nos deu, dentre tantos outros, Manuel Bandeira e João Cabral de Mello Neto.

O nordeste tem paisagens magníficas e únicas, como os lençóis maranhenses, Fernando de Noronha, a chapada diamantina, as praias onde os paulistas passam as férias e a arquitetura colonial de antigas capitais como Recife e Salvador. O nordeste é um cartão-postal do Brasil e sua beleza encanta o mundo.

Além das belezas que a natureza criou nesta região tão especial de nosso país, há outra beleza que encanta ainda mais: o povo nordestino, tão alegre, capaz de ser feliz mesmo nos momentos mais difíceis. Um povo guerreiro, que tem coragem tanto para enfrentar a seca quanto para deixar sua terra e ir sozinho pelo mundo em busca de oportunidades, suportando os preconceitos, sofrendo de saudade, trabalhando duro para ganhar o pão de cada dia sem jamais perder sua alegria tão característica de uma gente apaixonada pela vida. Como não se emocionar quando, ao comentar uma foto da capital pernambucana postada no Dia do Nordeste no Facebook, recebemos a resposta "O Recife tem um lugar pra você no seu coração"? O nordestino é assim: recebe todos de braços abertos, adora mostrar ao mundo sua cultura, as belezas de sua terra e sua alegria de viver.

Quando se fala em Movimento Modernista, a primeira imagem que vem à cabeça é a Semana de Arte Modernano Teatro Municipal de São Paulo. Contudo, o principal objetivo de tal movimento, a busca das origens da cultura brasileira, a essência da brasilidade, para a partir daí se criar uma arte genuinamente nacional, levou os modernista aonde? A Minas, ao norte e ao nordeste. Foi nestes lugares que Mário de Andrade conheceu a literatura de cordel, adquiriu suas obras de arte (atualmente no IEB-USP, a coleção é composta por peças do barroco mineiro, artesanato indígena, carrancas nordestinas, dentre muitas outras coisas), estudou a fala do brasileiro, nossas tradições culturais, nossas lendas etc. Basta ler Macunaíma para ver o quanto de cultura nortista e nordestina está presente naquela obra, tão brasileira.

Há paulistas que culpam os nordestinos pelas favelas de SP, os chamam de vagabundos, analfabetos e tantas outras coisas que não vale a pena reproduzir aqui. Mas são esses mesmos nordestinos que constróem os prédios de SP. Eles são os porteiros, os pedreiros, os motoristas de ônibus, os operários, enfim, são eles que fazem SP. Estudo na Unicamp, considerada uma das melhores universidades do mundo, e tenho orgulho de dizer que diversos professores da minha universidade são nordestinos.

Muito mais há para ser dito sobre o nordeste, mas termino por aqui e deixo a você esta maravilha nordestina: http://www.youtube.com/watch?v=datA5JD5mTg

Feliz dia do nordeste! Manifeste-se!

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O ódio dos derrotados

Democracia é uma palavra de origem grega e significa "poder do povo" (demos = povo, kratos = poder). Portanto, o objetivo final de um regime democrático é dar voz a todos, permitir que cada um se manifeste de acordo com suas próprias convicções, mas, como é impossível agradar a todos, a decisão final se baseia na vontade da maioria.

Sérgio Buarque de Holanda atentava para a confusão entre democracia e liberalismo, tão comum na sociedade brasileira. É justamente esta confusão que sustenta o frágil argumento de que democracia consiste em rotatividade do poder. Não. Democracia é o poder do povo, no caso do Brasil, exercida de forma representativa, ou seja, damos ao legislativo o poder de nos representar nas votações que definem os rumos do país, além de elegermos os principais cargos do poder executivo: prefeito, governador e presidente da república.

O fato é que, até do fim da ditadura militar, só se respeitavam os valores democráticos enquanto estes não entrassem em conflito com interesses das elites. Somente após a redemocratização do país é que a verdadeira democracia passou a florescer entre nós, visto que agora todos os brasileiros possuem representação política, reivindicam, fiscalizam o poder público e vão às urnas escolher seus governantes.

Os direitos políticos que os brasileiros de hoje possuem são fruto de uma luta histórica pela qual muitos brasileiros foram torturados e até mortos. Luta de um povo formado por pobres e ricos, das mais diversas raças e credos religiosos, e que se desenvolveu em todo o território nacional, nas ruas, nas universidades, nas igrejas, nas fábricas, enfim, em diversos espaços diferentes, cada um com uma característica específica, mas em todos os lugares havia uma mesma luta e um mesmo ideal. E assim nosso povo conquistou a liberdade e a democracia.

Por isso, é lamentável que parte da nossa sociedade queira um retrocesso. Se, durante a campanha de Serra à presidência da república, percebi em muitos de seus aliados políticos e eleitores um sentimento de nostalgia da ditadura, após a confirmação de Dilma como nossa nova presidente, recebi a confirmação disso: incitados por Mayara Petruso et al., diversos internautas começaram a publicar no twitter o que há de mais condenável em termos de preconceito. Ao invés de celebrarem a democracia, se recusaram a aceitar a derrota do candidato apoiado por eles e passaram a incitar o ódio aos nordestinos, aos pobres e às raças não européias, "culpando-os" (é vergonhoso votar?) pela escolha da candidata que não era da preferência deles. Eis uma pequena coletânea da barbárie: http://www.youtube.com/watch?v=tCORsD-hx0w

Em primeiro lugar, cada um deve votar segundo suas próprias preferências. É necessário respeitar a liberdade de opinião e de pensamento de cada um e aprender a não discriminar ninguém por ter outra visão de mundo. Com que direito uma pessoa afirma que a outra "não sabe votar", sendo tal constatação fruto de suas convicções pessoais? Aí entra o argumento do "eu tenho estudo". E daí? democracia é para todos, eu também tenho estudo e votei na Dilma. Aliás, os maiores intelecutuais brasileiros votaram nela (eis alguns exemplos: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-manifesto-dos-intelectuais). Ambos candidatos receberam votos em todos os municípios do Brasil, incluindo o "Sul-Sudeste", onde, segundo a turma de Mayara, "se sabe votar".

O discurso dessas pessoas é contraditório do começo ao fim. São Paulo, Minas e Rio de Janeiro são colégios eleitorais muito maiores do que qualquer estado nordestino. No Rio, Dilma dominou, Minas ficou dividido e em São Paulo, tradicional reduto tucano, a vantagem de Serra foi pequena. Se o tal "sul-sudeste" realmente tivesse escolhido Serra, a vitória de Dilma no nordeste teria sido inútil. Além disso, Dilma venceu em metade do território dos estados do "sul-sudeste" (http://www.estadao.com.br/especiais/mapa-da-votacao-para-presidente-nos-municipios,123626.htm) e é só fazer as contas para perceber que mesmo sem nordeste ela teria sido eleita.

A crença de que nordestino vende o voto por um saco de arroz é outra bobagem que só nos mostra quão grande é a ignorância dessas pessoas, incapazes de perceber o óbvio: enquanto tradicionais caciques da política nordestina não foram eleitos, São Paulo deu mais de 400.000 votos a Paulo Maluf. Dirão que o Pará elegeu Jader Barbalho, prova do atraso daquele estado. Ok, mas São Paulo, terra da maioria dessas pessoas que odeiam os nordestinos e os analfabetos, elegeu Tiririca, nordestino e supostamente analfabeto, para representá-lo na câmara. Além disso, nas últimas eleições, São Paulo foi o campeão em eleger parlamentares exóticos e "celebridades", como Clodovil, Frank Aguiar e Agnaldo Timóteo. Grande contraste com a "atrasada" Bahia, onde ridículos como o Da Luz, que aparecia no horário eleitoral com lâmpadas penduradas no corpo, jamais foram eleitos.

 Os antidemocráticos também manifestaram a crença de que no nordeste os eleitores vivem, todos, no semi-árido e no norte só existem índios. Aos que acreditam nessa bobagem, sugiro que troquem uma hora de twitter pela página do IBGE, onde há o cidades@, que nos mostra onde ficam os municípios mais populosos (no nordeste, ficam no litoral, seguidos pela Zona da Mata e pelo Agreste. Uma percentagem muito pequena da população vive no semi-árido. No norte, as cidades se concentram às margens dos rios e, em ambas as regiões, há grande concentração populacional nas capitais). Nestas regiões há, sim, educação pública para todos ou quase todos, o analfabetismo vem diminuindo e, nas duas edições da Olimpíada Nacional em História do Brasil, o nordeste foi mais premiado do que as demais regiões do país (http://www.mc.unicamp.br/2-olimpiada/premiacoes/index).


Quanto a instituir o voto censitário, não vejo motivo. Em primeiro lugar, cada um, na condição de cidadão, tem o direito de eleger seus governantes. Se um pobre tem preferência por algum candidato é porque, mesmo tendo pouca instrução, percebe que as políticas defendidas pelo candidato o beneficiarão. Quem tem diploma age de outra forma na hora de escolher em quem votar?


Além disso, é curioso notar que a cidade onde Serra teve o maior percentual de votos está situada no norte do país: trata-se de Rio Branco, capital do Acre. Mas não é lá a "terra dos índios vagabundos que vivem às custas do bolsa-família pago pelo sul-sudeste"? Não é lá que "só tem burros analfabetos dispostos a tocar o voto por um saco de arroz"? Como explicar ter sido justamente lá o palco da maior vitória do "candidato dos inteligentes" contra a "candidata dos ignorantes"?

Por fim, diante de tantos comentários do tipo "agora nós do sul-sudeste teremos que continuar trabalhando para sustentar nordestino vagabundo com bolsa-família", faço uma pergunta a essas pessoas: se são contra o bolsa-família, por que motivo votaram no candidato que prometeu não apenas manter o programa, mas também dobrar o valor dessas bolsas, criar 13o e ainda por cima aumentar a quantidade de bolsas oferecidas?

A OAB-PE entrou hoje com representação criminal contra Mayara na justiça paulista. Ao ler notícia sobre isso (http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=878557), me espantei ao descobrir que ela é estudante de direito, tendo agido, portanto, de forma contrária à função social de sua futura profissão. Que seja julgada de forma democrática, apesar de ela não gostar da democracia, e sua condenação, iminente diante de tantas provas e testemunhas de seu ato, sirva de exemplo para coibir atos semelhantes.

O episódio protagonizado por Mayara me fez lembrar de uma ação de um grupo neonazista em São Paulo, há cerca de uma década, quando picharam o local com ameaças aos nordestinos que vivem em São Paulo. Ben Abraham, imigrante polonês vítima do nazismo acredita que, quando não denunciamos a perseguição às minorias, damos carta branca para que a barbárie continue acontecendo (http://ditaduranazista.blogspot.com/).

Por fim, recomendo a leitura do artigo de Maria Rita Kehl que resultou em sua demisssão do Jornal O Estado de S. Paulo. Sua leitura e a posterior demissão de sua autora evidenciam que comportamentos como o de Mayara são incentivados por uma mídia que reforça estereótipos e mitos relacionados ao norte e ao nordeste e cala quem ousa defendê-los (Artigo: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/maria-rita-kehl-dois-pesos.html Entrevista com a autora: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4722228-EI6578,00-Maria+Rita+Kehl+Fui+demitida+por+um+delito+de+opiniao.html).

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A preservação dos valores democráticos.

Muitos ativistas acusam candidatos à presidência de serem uma ameaça à democracia. Alguns acusam Serra, outros acusam Dilma, e há também que acuse ambos.

Quem está com a razão? Vamos aos fatos.

O Brasil, durante a maior parte de sua história, foi governado por um ditador, a começar pelo rei de Portugal. Com a independência, nos tornamos um império e finalmente tivemos um poder moderador: o congresso, fechado quando se opunha à vontade do imperador, e reaberto quando a popularidade do monarca atingia níveis muito baixos.

Depois da proclamação da república, tivemos a república da espada, época em que os presidentes eram militares. Depois veio o café com leite: São Paulo e Minas usaram o poder em benefício próprio (não do povo, mas dos latinfundiários). Veio a revolução de 30, tivemos a ditadura de Vargas, períodos curtos nos quais a democracia floresceu, a ditadura militar de 64, que durou 21 anos e, por fim, a redemocratização, com a constituição de 88. Desde então, embora muito se critique a democracia no Brasil, ela está evoluindo e se afirmando.

Um bom exemplo disso é a chamada compra de votos, que vai se tornando cada vez menos comum. José Murilo de Carvalho observa (In: Cidadania no Brasil: o longo caminho) que nos primórdios da república, a compra de votos era o meio pelo qual os políticos se elegiam, mas com o passar do tempo o eleitor passou a cobrar cada vez mais caro pelo seu voto, ia tomando consciência de que aquilo tinha valor, e daí à consciência cidadã era um passo, e a compra se tornava um fardo pesado para os políticos, que optaram por instituir o voto censitário alegando que um povo ignorante não estava apto a votar. Assim se matou a primeira tentativa de democratizar o país e o voto foi restrito às elites.

A nossa constituição de hoje assegura o direito de voto aos pobres e aos analfabetos, direito condenado por muitos partidários de Serra e órgãos de mídia que o apóiam. Nossa democracia é jovem e os valores democráticos estão se tornando cada vez mais sólidos. Não podemos nos deixar levar por discursos preconceituosos que pregam o direito de voto apenas aos que tem diploma de nível superior ou aos que tem dinheiro para assinar jornal. Isso é discriminar. O povo, historicamente excluído do processo democrático, hoje tem voz. Ainda não discursa, mas está aprendendo. Vimos, na última eleição, vários caciques da nossa política não serem reeleitos. Não eram eles que os analfabetos elegiam em troca de um mísero par de sapatos? Pois bem, agora está surgindo uma consciência de que o voto vale bem mais do que isso. Cabe a nós, cidadãos, mais do que ir às urnas, usar nossos direitos políticos no dia-a-dia, cobrando ações dos governantes, fiscalizando-os e participando ativamente dos debates em torno do desenvolvimento da nação.

A mídia serrista é formada pelo jornal O Estado de S. Paulo, principal apoiador do golpe de 64, pela Globo, criada com o patrocínio dos militares para apoiar o regime, que manipulou as eleições de 89 e elegeu Collor, e por tantos outros órgãos de mídia que chegaram ao cúmulo de publicar fotomontagens e notícias baseadas em boatos de internet para associar Dilma ao terrorismo. Eis exemplos do que há de mais condenável nessas instituições. Os blogs foram a principal forma da esquerda mostrar sua visão dos fatos e combater a doutrinação ideológica dos principais meios de comunicação do país. Talvez isto explique porque Serra defende a censura aos "blogs sujos" que contrariam seu ponto de vista.

Já pensaram na diferença entre a visão de mundo dos eleitores de Serra e de Dilma? O eleitorado tucano é predominantemente das classes A e B. Não se trata de serem pessoas mais cultas ou esclarecidas, visto que os grandes intelectuais do país apóiam Dilma. São, isso sim, classes privilegiadas que vivem uma realidade distante daquela vivida pela maioria da população. Gente cuja vida se limita aos limites dos condomínios e shoppings. Gente que tem nojo de pobre. Gente que se envergonha do Brasil porque aqui há muita pobreza, mas prefere continuar se envergonhando a permitir o avanço de programas sociais que promovam melhores condições de vida e aumento da renda da periferia.

Os eleitores de Dilma, ao contrário, se distribuem por todas as classes sociais, indo desde os maiores intelectuais brasileiros, que compreendem a necessidade de nosso pais combater a desigualdade social, há muito tempo além do limite do tolerável, até os pobres, outrora esquecidos pelo Estado, que agora vêem sua vida melhorar. Os programas de erradicação da pobreza no Brasil são elogiados e copiados mundo afora. A nova classe média, formada por pobres que ascenderam socialmente durante o governo Lula, está tirando cada vez mais gente da miséria e isso não é assistencialismo, é desenvolvimento social.

Com relação às eleições, devemos pautar nossa escolha pelo condidato que apresentar as melhores propostas e souber defendê-las nos debates, bem como demonstrar disposição para discuti-las e, eventualmente, modificá-las de acordo com o interesse coletivo. No entanto, o que vemos são ataques incessantes e cada vez mais apelativos à honra da candidata Dilma, que, tendo participado da luta pela democracia nos anos de chumbo, sido presa e torturada no DOPS, é tachada de terrorista (ecos de uma nostalgia da ditadura na campanha de Serra), enquanto o candidato tucano se mostra como um herói que lutou contra a ditadura (por correspondência, já que se autoexilou no exterior e não cumpriu nem mesmo seu mandato como presidente da UNE). Serra ainda teve a capacidade de negar o papel de sua adversária na luta contra o regime militar.

Dilma também tem feito ataques ao tucano, especialmente quando os ataques feitos a ela provocaram perda de votos da candidata petista, que tem todo o direito de se defender, seja desconstruindo as acusações feitas a ela, seja denunciando os podres do candidato adversário. Entretanto, ela também apresentou suas propostas, coisas que Serra não fez. É necessário ter o bom senso de escolher em quem votar com base nas propostas apresentadas, tendo como segundo critério a moral dos candidatos, revelada por suas atitudes com relação aos adversários. A democracia deve se pautar pelo respeito ao outro. Ataques gratuitos não contribuirão em nada para tornar mais esclarecedor o debate em torno da sucessão de Lula.

Lula deu exemplo de democracia durante seu governo, não interferindo uma única vez na atividade da imprensa, por mais que essa lhe tenha feito críticas sensacionalistas, tendenciosas e injustas. Durante a crise econômica, na qual o Brasil foi o último país a entrar e o primeiro a sair, a imprensa e os políticos tucanos acusaram Lula de estar agindo de maneira imatura e irresponsável e fizeram piada com a declaração do presidente de que no Brasil haveria uma "marolinha". É fato que nosso país cresceu durante a pior crise mundial das últimas décadas, que provocou caos em diversos países muito fortes economicamente e dotados de melhores meios de reduzir seus impactos. Torcer contra o Brasil em nome de um fanatismo ideológico é a prova de que essa gente não tem um pingo de amor ao país e só pensa em si mesma. Política não é futebol para escolhermos um time para torcer e comemorar quando o adversário perde um gol. Quando o governo comete um erro, todos nós pagamos por ele. O Estado é de todos e, fora das urnas, é nosso dever trabalhar por um país melhor independente de quem esteja no poder.

Lula comandou os trabalhadores brasileiros na luta pela redemocratização do país e, desde então, suas ações se pautaram pela defesa dos excluídos e pelo fortalecimento da democracia. Assim como Dilma, foi preso e torturado no período mais triste de nossa história. Mesmo sofrendo fortes ataques da revista Veja, o governo federal foi o principal assinante da revista, distribuída por bibliotecas e repartições públicas em todo o país. Quer atitude mais democrática do que essa? Você pode até não gostar de Lula, de Dilma e do PT, mas, se pode manifestar abertamente suas opiniões, agradeça a eles.

Voltarei a publicar neste blog somente depois da eleição. Até lá!

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Meio-ambiente

Uma questão importantíssima a considerar na hora de escolher em quem votar nas próximas eleições são as propostas para preservação do meio-ambiente. Eis as minhas considerações.

Em primeiro lugar, é necessário esclarecer que o partido do presidente sempre toma para si os ministérios que considera estratégicos para o desenvolvimento do país. Assim, ministérios de saúde, educação, agricultura, etc pertencem, tradicionalmente, ao partido do executivo. Já os ministérios cuja importância estrategica não é tão grande para o projeto do governante, acabam sendo entregues aos partidos aliados em troca de apoio no congresso.

O Ministério do Meio-Ambiente é um dos que costuma ser usado para barganhas políticas (no governo FHC, por exemplo, foi dado ao filho de Sarney em troca do apoio do PMDB). A única vez que isso não aconteceu foi durante o governo Lula, quando Marina Silva, à época, do PT, assumiu a pasta. Isto prova que o PT enxerga o setor ambiental como estratégico para o desenvolvimento do país.

Assim é que, durante o governo petista, graças ao trabalho de Marina Silva, houve uma grande redução nos desmatamentos da amazônia brasileira. Seu trabalho foi reconhecido e premiado internacionalmente. Seus atritos com Dilma foram algo absolutamente normal em política: os interesses das pastas conflitavam (Marina precisava lutar pela preservação, enquanto Dilma precisava cuidar de obras necessárias e urgentes para o Brasil avançar), algo absolutamente normal, sendo que normalmente, em situações como essa, o ministro do meio-ambiente precisa se calar para não perder a pasta, já que os interesses políticos em jogo se sobressaem aos interesses ambientais, uma vez que o ministério do Meio Ambiente, como já foi dito, costuma servir para barganhas políticas.

Mas Dilma, pintada como vilã da causa ambiental por cobrar urgência na execução de obras de impacto ambiental considerável, não teve outra escolha. Como ministra, era sua função cuidar de sua pasta e o Brasil estava prestes a entrar em um colapso energético e logístico graças aos baixos investimentos em infra-estrutura no governo FHC. Como presidente será responsável por coordenar a integração entre todas as pastas dos ministérios e certamente fará isso com competência.

Além disso, Dilma contribuiu muito com o meio-ambiente. Sua principal contribuição se deu através da Petrobrás, de cujo conselho diretor Dilma fazia parte. No governo FHC, com o objetivo de obter apoio popular para a privatização da estatal, a empresa foi sucateada a ponto de derramamentos de óleo serem frequentes. A empresa era chamada de "emporcalhobrás" por um grupo de humoristas. Quem não se lembra do afundamento da Plataforma P-36 na Bacia de Campos? Aquilo foi o ápice de uma série de ações cujo objetivo era convencer o brasileiro de que a empresa caminhava para a falência, devendo, portanto, ser privatizada. Ao mesmo tempo, se tratava de reduzir o valor de mercado da empresa para vendê-la a preço baixo, a exemplo do que foi feito com outras estatais. Quem pagou mais caro por essas ações absurdas do governo foi o meio-ambiente: grandes quantidades de óleo emporcalharam praias, rios e mares. Lula e Dilma, ao contrário, investiram na empresa, que cresceu muito e hoje é a empresa brasileira que mais investe em programas e pesquisas científicas ligados à preservação do meio-ambiente, além de patrocinar atividades culturais e esportivas por todo o país.

Enfim, há muito a ser dito sobre o trabalho do governo Lula em prol do meio-ambiente, mas a preocupação ambiental da Petrobrás e o tratamento dado ao ministério do Meio-Ambiente são, a meu ver, os dois pontos principais. Marina Silva permanece neutra neste segundo turno, por decisão própria, mas declarou que, dentre os dois candidatos, as propostas de Dilma são mais próximas às dela. Além disso, a filha de Chico Mendes, a juventude de PV e diversos diretórios do PV em vários estados brasileiros apóiam a candidata petista. Quer reconhecimento maior do que este? Por outro lado, pesquise: qual candidato os latifundiários apóiam?

Encerro este artigo por aqui porque desejo informar o meu leitor sobre um boato que circula por aí, alegando que Marina declarou apoio a Serra. Trata-se de uma mentira deslavada, conforme se pode perceber lendo esta nota: http://www.espalheaverdade.com.br/2010/10/27/e-mail-com-falso-texto-de-marina-circula-pela-rede/

Uma nova versão do boato surgiu recentemente em um blog pró-Serra. O blog usa um leiaute muito parecido com das páginas oficiais do candidato e cita a Agência Estado como fonte, sem ter link para a fonte. Fiz uma busca na paǵina da referida agência de notícias e outra no google, em ambos os casos, não encontrei tal informação. Fique atento e não acredite em tudo o que dizem por aí. É o desespero dos tucanos que vêem a Dilma crescer nas pesquisas às vésperas das eleições e querem derrubá-la a qualquer custo. Pesquise sempre!

Acabo de ler a seguinte notícia no blog de Marina Silva: http://www.minhamarina.org.br/blog/2010/10/nao-usem-meu-nome-para-o-vale-tudo-eleitoral-repreende-marina/. Eis mais um desmentido dos boatos, dessa vez por ela mesma.