quinta-feira, 19 de maio de 2011

A mídia, e não o livro, ensina errado

Lembram do livro didático que, segundo os jornais e a TV, ensina errado? Pois é, parece que não é bem assim: são os "jornalistas" (com todo o respeito à classe profissional, pois me refiro às bestas de jornal que se acham jornalistas) que não entendem a norma culta da língua (à qual defendem) e interpretam de forma errada os conceitos explicitados no texto.

Não quero me alongar, pois meu objetivo, com este texto, não é tornar a discutir o assunto, mas apresentar aos meus leitores alguns textos interessantíssimos e esclarecedores que recebi hoje.

O primeiro é um artigo do professor Sírio Possenti, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, muito esclarecedor sobre a questão do preconceito lingüístico e que nos mostra claramente como a mídia deturpou o sentido do texto original, presente no livro didático: http://bit.ly/iOI4ms

 O segundo texto recebi agora há pouco, através da lista de e-mails da pós-graduação do IEL, e achei importante compartilhá-lo, pois trata-se de um esclarecimento da Ação Educativa, responsável pela edição do livro. Deve-se sempre ouvir a parte ofendida antes de julgar em favor do ofensor: http://www.acaoeducativa.org/index.php?option=com_content&task=view&id=2604&Itemid=2


Boas leituras e até a próxima!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Me deixem falar a minha língua!

"A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem"
Manuel Bandeira

A polêmica recente em torno da adoção, pelo MEC, de um livro didático que busca educar jovens brasileiros para a cidadania, e não para o preconceito, nos mostra o quanto uma parcela expressiva da nossa sociedade permanece atrasada no campo intelectual. Desde quando Amadeu Amaral publicou o primeiro estudo sobre o dialeto caipira paulista, muita pesquisa foi feita sobre a língua brasileira, tanto no que diz rspeito ao regional quanto ao nacional. Entretanto, velhos carcomidos ainda gritam em favor da língua de Camões, contra a língua de Guimarães Rosa.
Meu primeiro contato com esta polêmica foi através de um programa de rádio de três bacanas, Carlos Heitor Cony, Xexéu e Viviane Mosé, que malharam o livro e defenderam com os argumentos mais ridículos, alguns dos quais transcrevo e comento abaixo:

Xexéo: "Tem muito lugar fora da escola pra aprendê a falá errado. Então... Eu não acho que é a escola que tem que ensiná isso" (reparem no uso do verbo "ter" no sentido de "haver", sem falar nas diferenças entre o português falado e o escrito, que procurei explicitar aqui). "A escola tem que ensiná a falá certo" (O que é falar certo?). "Esse negócio de preconceito linguístico beira um pouco o ridículo, né?" (Claro, afinal, as pessoas que falam "errado" são ridículas, ao contrário de você que é superculto!).

Viviane: (Escandalizada ao falar sobre a filha da babá) "uma menina superestudiosa e escrevia muito corretamente, mas falava completamente fora da norma culta" (ou seja, falava o dialeto da comunidade à qual pertencia) "e eu perguntei 'mas os seus professores não te corrigem?'" (corrigem o quê? Ela não é a melhor aluna da turma?). "Quando você aprende a norma culta da língua, você desenvolve espaços de pensamento e reflexão mais amplos, com vocabulário correto, com as estruturas do pensamento mais complexas" (Esse foi o pior. Faltou citar um estudo sobre isso, aliás, existe?). "Ler o mundo, interpretar o mundo tendo como referência a língua portuguesa, isso é fundamental" (e quem faz isso melhor são justamente os que vivem a realidade, ao invés de buscá-la na norma culta dos noticiários).

Cony (esse eu admirava quando estava no ensino médio e trabalhava dissertações dele na aula de redação, mas depois que passei a ouvir suas pérolas na CBN, ele caiu muito no meu conceito): "A vida social exige determinados parâmetros: no vestuário, na apresentação, na higiene" (enfim, a norma culta nos diferencia, assim como a higiene e o vestuário, da gente diferenciada). "Dentro do convívio social, a gente se  obriga a se comportar direito na mesa, a não botar os cotovelos na mesa, a não comer de boca aberta (dessa eu não sabia, sempre abri a boca para comer, que vexame!), são coisas que o convívio social exige e a língua, evidentemente, é uma delas (e o Cony não se mistura com gente diferenciada, pois ele sabe falar a norma culta e comer com a boca fechada. Suspeito que ele também saiba falar em braille e lavar as mãos antes de sair do banheiro. Só não sabe ficar de boca fechada quando não está comendo.


Alguns dias depois recebi um e-mail intitulado "Coitada da nossa pobre e rica LÌNGUA PÀTRIA...". Não sabia que nossa língua pátria era essa. Achava que língua pátria era a língua falada pelo nosso povo, na nossa pátria, nas nossas ruas, e não aquela de além-mar, falada por outro povo, de outra pátria, da qual não somos mais colônia. Como se não bastasse o episódio recente da reforma ortográfica, estou vendo um bando de defensores do pacto colonial lingüístico (com trema mesmo) lutando contra a nossa independência, contra o jeitinho brasileiro de falar e escrever, que, como mostram vários estudos, começando pelo de Amadeu Amaral, diferencia nossa língua da dos lusos, assim como nossa cultura se diferencia da deles. Não persistamos no erro: a língua brasileira está aí, nas ruas, nos supermercados, nas fábricas, no campo e nos lares. Quem a ignora age como um bebê desejando mamar nos peitos de Camões que não podem amamentar ninguém. Temos Guimarães Rosa. Crescemos. Vamos falar na nossa língua.


Para finalizar, sugiro a leitura de um excelente texto de Marcos Bagno sobre o preconceito lingüístico e o boicote à nossa verdadeira língua pátria: http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=456

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Governo de SP: desrespeito por você!

Acabei de almoçar no Restaurante Universitário (RU) da Unicamp. A sensação foi quase a mesma de almoçar debaixo de chuva, com todas aquelas goteiras, algumas pingando, outras escorrendo.

O "aumento de vagas com qualidade" implantado pelo governo tucano de SP serviu para aumentar as filas para uso do referido restaurante, bem como a demanda por vagas na moradia estudantil, por uso do parque computacional e das bibliotecas da universidade e sobrecarregou funcionários de diversos setores instituição, inclusive docentes, pois muitos têm o dobro de alunos que tinham antigamente.

Em contrapartida, as goteiras no restaurante também aumentaram proporcionalmente, somente as verbas de manutenção é que não aumentaram. Embora já tenha visto diversas obras de manutenção no telhado do RU, nunca vi diferença em termos práticos: tapam um buraco aqui enquanto surge outro ali.

Minha experiência de hoje foi quase surreal: nas áreas externas cobertas do restaurante, os estudantes tentavam organizar uma fila gigantesca para entrar no prédio secos, ou pelo menos úmidos.

Após passar pela catraca, constatei que o interior do restaurante tinha mais goteiras que o exterior: a superlotação era agravada pelo fato de que diversas mesas estavam inutilizadas pela água que caía sobre elas. Ao meu lado, a água escorria por algumas lâmpadas, revelando a precariedade das instalações elétricas, coroada pelas gambiarras para impedir que as lâmpadas caíssem sobre os estudantes que comiam logo embaixo.

Um olhar panorâmico sobre o restaurante logo revelava os pontos mais críticos: mesa vazia era sinal de goteiras grandes, para não dizer cachoeiras. Até na cozinha os funcionários trabalhavam debaixo de goteiras, enquanto alguns funcionários andavam pelo restaurante puxando com rodos a água empoçada.

Após pegar a comida, constatei que havia uma cortina de água para chegar às mesas de autoserviço. Após me molhar um pouco consegui pegar guardanapo, talheres e me servir de salada. Me sentei debaixo da rampa, onde não havia risco de ser atingido pelas goteiras. Não tardou e vi quando colocaram um balde no meio do caminho, onde havia uma goteira que encharcava todo o chão.

Depois de algum tempo percebi estudantes usando guarda-chuvas na fila para sair do prédio (até para sair há filas, o que evidencia a saturação do RU). Comi e peguei aquela mesma fila, de fato atingida por algumas goteiras ao longo do caminho, e saí com dificuldade, pois muitos estudantes se amontoavam na saída do prédio esperando a chuva passar, dificultando a saída dos demais. Diante da banca de café havia uma goteira gigantesca sobre um banco de concreto, que esparramava a água por todos os lados.

Eis os resultados da política tucana para o ensino superior em SP. Eis como se sucateia um centro de excelência. Eis os primeiros efeitos da canetada do ex-atual-governador Geraldo Alckmin, que, em 2006, vetou a lei aprovada pela Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, determinando que o aumento de vagas deveria implicar em aumento de verbas. E seu suceantecessor (sucessor e antecessor) José Serra se limitou a usar as forças policiais contra os estudantes que nos últimos anos reivindicaram investimentos em infra-estrutura para evitar cenas lamentáveis como a que presenciei hoje e a colocar um reitor biônico na USP.

Felizmente, enquanto houver povo, há esperança.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Wikileaks: a luta por aquilo que o mundo tem direito de saber.

Recentemente, a página Wikileaks (http://213.251.145.96/) causou furor em todo o mundo por revelar documentos que autoridades mundiais e pessoas poderosas querem esconder a todo custo.

Graças ao Wikileaks, hoje sabemos que Abu Graib foi uma gota d'água no oceano de crimes que as forças armadas dos EUA cometem no Iraque. O nosso ministro da Defesa, Nelson Jobim, foi desmascarado: trabalha em defesa dos interesses dos interesses ianques e critica a política externa brasileira sempre que esta contraria os interesses estadunidenses (http://www.conversaafiada.com.br/mundo/2010/11/30/escandalo-jobim-e-ministro-da-defesa-dos-eua/). Essas são só algumas das muitas notícias que vieram à tona, muitas delas oriundas de redações de jornais que, com sua censura interna, impedem que informações de interesse público sejam veiculadas caso contribuam negativamente para a imagem de algum de seus protegidos.

Embora não seja crime divulgar dados de interesse público, a Wikileaks tem sido vítima de uma reação violenta da justiça(?) internacional: seu fundador foi preso na inglaterra, a página foi retirada do ar e operadoras de cartões de crédito, que permitem doações para organizações racistas e nazistas, decidiram impedir seus clientes de doar dinheiro para o Wikileaks.

Por que tanto ódio? Autoridades estadunidenses afirmam que a página viola dados sigilosos. Mas aí entra-se em uma outra questão: os dados divulgados são de interesse público e dizem respeito a questões políticas, e, portanto, que não podem ser consideradas sigilosas, já que o governo é mantido pela sociedade e deve prestar contas a ela. O cidadão tem o direito de saber.

Assim, cabe a nós, cidadãos do mundo, lutarmos pelo acesso público desses dados. Há um abaixo-assinado contra a proibição do Wikileaks: http://bit.ly/eumXac. É importante que todos assinem. Precisamos mostrar ao mundo a nossa força e lembrar aos líderes mundiais que quem manda é o povo, e não eles que ficam perseguindo um paladino da democracia enquanto fingem que não vêem grupos racistas, xenófobos, homofóbicos, etc que se tornam mais fortes a cada dia e divulgam impunemente suas doutrinas, muitas vezes com apoio governamental.

Os documentos do Wikileaks estão sendo divulgados em páginas-espelho e disponibilizados em torrents. Acredito que a semente germinou e não conseguirão impedir a planta de crescer. De qualquer forma, é importante que lutemos pela página, por sua importância simbólica.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Liberdade de imprensa nem um pouco ameaçada.

Me diverti muito ao ler esta entrevista hoje cedo: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20101122/not_imp643479,0.php. Trata-se de uma entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo, um dos maiores críticos à regulação da imprensa, que considera censura, pela consultora da UNESCO Eve Salomon.

Em primeiro lugar, é interessante notar a posição do jornal, que elabora as perguntas de forma a direcionar as respostas a um sentido favorável à opinião de que as mudanças são parte de um processo de censura, mas as respostas são brilhantes e fogem das armadilhas do jornal, que saiu derrotado nesta entrevista.

Não há nada de errado no fato do governo reclamar da mídia, pois esta, de fato, está longe de ser considerada um exemplo de jornalismo ético, comprometido com a verdade e a imparcialidade. Quando os principais órgãos de mídia adotam uma mesma posição política, é necessário algum tipo de intervenção que não os cale, mas garanta o direito de resposta às partes atingidas. Cada um tem o direito de se defender das críticas que recebe, mas esse direito, garantido pela constituição, é desrespeitado diariamente.

Um exemplo, uma certa revista semanal já publicou, em diversas ocasiões, reportagens desfavoráveis ao esperanto que reforçam clichês e deduções distantes da realidade, mas convincentes para um leigo. As reportagens, obviamente, geraram reações por parte da comunidade esperantista brasileira e estrangeira, que enviou diversas mensagens à redação desta revista. Quantas foram publicadas? Nenhuma. É um caso isolado? infelizmente está longe de ser.

E o que falar das recentes CPIs dos Correios e da Petrobrás? Quanto dinheiro público foi gasto nesses shows de demagogia que só serviram para mostrar que não havia nada de errado com essas empresas? Que escândalo os jornais fizeram! Quantos ortigos os Diogos Mainardis de plantão escreveram metendo o pau no governo com base no diz-que-diz-que? E quantos comentários dos comentaristas de TV? No fim, quando foi tudo apurado, a imprensa, que havia tomado partido em favor dos derrotados, não mostrou os fatos que estavam ali apurados cuidadosamente por pessoas autorizadas, e não por boateiros de jornal.

Um ponto importante que a mídia ignora a respeito da regulação é a forma como a punição é aplicada: no caso de censura, o órgão é impedido de publicar algo (assim como estes mesmos órgãos impedem, e portanto censuram, a publicação de certas cartas ou de artigos de colunistas que discordam do ponto de vista de seus superiores). O que se quer fazer no Brasil é criar agências reguladoras que não impeçam a reportagem de ser publicada, mas intervenham no sentido de garantir o direito de resposta das partes atingidas, bem como proteger a privacidade das pessoas, as crianças e a diversidade de opiniões. Isso é bom para o desenvolvimento da nossa democracia, que, como Sérgio Buarque já observava há quase um século, em nosso país sempre foi confundida com liberalismo.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Ensino do esperanto nas escolas.

Recentemente a mídia voltou a dar destaque à notícia de que há mais de 250 projetos de lei sobre educação tramitando no Congresso Nacional. Esse dado, por si só, não nos indica se isso é bom ou ruim, pois deve-se analisar também o mérito dos projetos, pois há, por exemplo, vereadores que se gabam de ser os que mais apresentam propostas, mas o que eles propõe? Mudanças de nomes de ruas, homenagens bestas a qualquer médico ou advogado falecido, distribuição de títulos de cidadão-qualquer-coisa para qualquer Dito Cujo que "prestou enormes serviços à população fritando coxinha no bar da esquina".

Analisemos o mérito dos projetos: bitolados por uma educação rígida e massacrante, jornaistas que não enxergam um palmo diante do nariz enchem suas reportagens de pré-julgamentos negativos. Assim, propostas como o ensino de xadrez, educação para o trânsito, educação ambiental, maior variedade de disciplinas eletivas de línguas e educação financeiras são logo atacadas por pessoas que não se deram o trabalho de ler as justificativas apresentadas pelos relatores nem o de se informar sobre o assunto com setores da sociedade favoráveis a tais projetos.

Há estudos que mostram, por exemplo, que xadrez contribui para o desenvolvimento do raciocínio lógico e da visão espacial. Educação para o trânsito é imperativa no ensino fundamental, pois pedrestres e ciclistas não fazem CFC, mas, pelo menos segundo o nosso código de trânsito, também estão sujeito a multas e são obrigados a conhecer a legislação. Com relação à educação ambiental, tenho o exemplo de um grupo de crianças de uma escola municipal que vi, há pouco tempo, desperdiçando copos descartáveis. Ao abordá-las para perguntar o que elas achavam da questão ambiental referente aos copos, elas simplesmente responderam "não tem problema ambiental nenhum, pois estes copos irão para a reciclagem". É ou não é necessário fazer um trabalho de conscientização sobre o meio-ambiente nas salas de aula? E assim há muito exemplos mais de como são falsos esses pré-julgamentos dos jornalistas que têm, em última instância, o objetivo de reduzir a discussão ao campo moral, ao mostrar os parlamentares como pessoas que só se preocupam com futilidades, ao invés de estimular o povo a refletir criticamente sobre as propostas. Assim, a mídia manipuladora mantém o seu papel de patrocinar o analfabetismo político do povo brasileiro.

O projeto apresentado como o cúmulo da excentricidade, no entanto, é o projeto de lei do senador Cristovam Buarque, docente da UnB e grande especialista em educação, sobre o ensino do idioma esperanto. Sempre acompanhadas de clichês como "o esperanto fracassou", "é uma língua que ninguém fala" ou simplesmente "é algo inútil". Pois bem, falo esperanto desde 2006, dou aulas deste idioma desde 2007 e é a língua que mais uso depois do português: além de usar o Facebook em esperanto, diariamente mantenho contato com amigos estrangeiros e recebo notícias sobre assuntos variados neste idioma, que ocupa o terceiro lugar no ranking mundial de distribuição geográfica de línguas: somos poucos falantes, mas estamos bem espalhados pelo mundo e conseguimos localizar outros falantes com facilidade. Além disso, o esperanto é a principal ferramenta que disponho para ter contato com culturas estrangeiras, sendo que li em esperanto quase tudo o que conheço de literatura africana, chinesa, holandesa e do leste europeu. Aliás, estou lendo o livro Du Virinoj (Duas mulheres), do escritor holandês Harry Mulisch, sem tradução para o português, e o mérito literário da obra superou muito as minhas espectativas.

No entanto, outro dia fui ao banco pagar minha inscrição no Congresso PanAmericano de Esperanto (TAKE), que acontecerá em São Paulo no ano que vem, e a funcionária do caixa me perguntou se eu acredito que o esperanto será universal. Claro que não acredito, pois se através dele mantenho contato com culturas estrangeiras, isso prova que ele já é universal, embora seja pouco usado pelas instituições diplomáticas e na comunicação empresarial e não conste nos manuais multilíngues de aparelhos eletrônicos. O que falta para o esperanto ser valorizado pelo mercado é apenas apoio político, mas os governos preferem insistir em usar seu poder político para legitimar suas línguas nacionais, favorecendo uma comunicação internacional que privilegia alguns em detrimento de outros. Assim, atualmente o esperanto aproxima pessoas sem aproximar mercados. Por fim, está comprovado que o conhecimento do esperanto facilita o aprendizado de outras línguas.

Quem quiser saber mais sobre o esperanto, sugiro que assista aos vídeos da série Esperanto Estas, disponíveis na internet, no seguinte endereço: http://esperantoe.blogspot.com/. Quem quiser aprendê-lo de forma autodidata, uma boa opção é a página Lernu: http://pt.lernu.net/.

Acho muito importante que novas disciplinas eletivas sejam introduzidas no currículo escolar, bem como que este se torne cada vez mais flexível para que o aluno possa se identificar cada vez mais com o que estuda e ter espaço de levar para o ambiente escolar tudo o que aprende fora da escola e vice-versa. Assim, a evasão escolar certamente irá diminuir e os estudantes se dedicarão mais aos estudos, algo que não vem acontecendo justamente porque os muros das escolas não impedem apenas o fluxo de pessoas entre a escola e o mundo, mas barram também o fluxo de conhecimento.

sábado, 6 de novembro de 2010

Dia do Nordeste

Em resposta aos ataques dirigidos ao povo nordestino após a eleição de Dilma, brsileiros de todos os cantos participam do Dia do Nordeste, uma campanha iniciada e centralizada no Facebook, para discutir a importância do nordeste, suas belezas naturais e sua riqueza cultural que nos encanta e surpreende.

A canção Paratodos, de Chico Buarque (http://www.youtube.com/watch?v=OgqerejOJdc), nos dá uma idéia da importância desta região do Brasil: grandes intelectuais e artistas do sul e do sudeste descendem de famílias nordestina, com ele próprio (Sobre isto, ver Bartolomeu Buarque de Holanda. Buarque: Uma família Brasileira: Ensaio histórico-genealógico. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2007). A letra de Paratodos, além de discutir a herança genética nordestina, presente em quase todos os brasileiros, também discute a importância desta região para a formação de nossa cultura. Nordeste é terra de Caymmi, João Gilberto, Jackson do Pandeiro, Hermeto Paschoal, Betânia e tantos outros grandes nomes da nossa música.

Mas a riqueza cultural do nordeste vai muito além do baião, do xote, do trio elétrico, dos frevos, maracatus, maculelês e tantos ritmos e danças típicas. A culinária nordestina é riquíssima, e as bebidsa típicas da região são igualmente variadas e deliciosas. Gilberto Freyre, ao discutir a formação cultural do Brasil, sempre enfatizou a importância do nordeste neste processo, bem como recheou seus livros com receitas deliciosas da culinária nordestina. E Gilberto Freyre, pernambucano, é um dos maiores intelectuais de nosso país, que, nas horas vagas, se dedicava à fabricação (e à degustação também) de licor de pitanga, outra maravilha do nordeste.

E o que dizer, então, de poetas como Zé Limeira, o poeta do absurdo, maior repentista do sertão da Paraíba e de tantos outros escritores que se dedicam à literatura de cordel, tão nordestina e tão especial, única e atual? As capas do folhetins de cordel são decoradas com xilogravuras típicas do nordeste, e discutem o modo de vida do nordestino, política, lendas e mitos brasileiros e tudo o que se pensar em termos de atualidades. O cordel tem uma riqueza que nos encanta e surpreende. E na poesia tradicional, o nordeste nos deu, dentre tantos outros, Manuel Bandeira e João Cabral de Mello Neto.

O nordeste tem paisagens magníficas e únicas, como os lençóis maranhenses, Fernando de Noronha, a chapada diamantina, as praias onde os paulistas passam as férias e a arquitetura colonial de antigas capitais como Recife e Salvador. O nordeste é um cartão-postal do Brasil e sua beleza encanta o mundo.

Além das belezas que a natureza criou nesta região tão especial de nosso país, há outra beleza que encanta ainda mais: o povo nordestino, tão alegre, capaz de ser feliz mesmo nos momentos mais difíceis. Um povo guerreiro, que tem coragem tanto para enfrentar a seca quanto para deixar sua terra e ir sozinho pelo mundo em busca de oportunidades, suportando os preconceitos, sofrendo de saudade, trabalhando duro para ganhar o pão de cada dia sem jamais perder sua alegria tão característica de uma gente apaixonada pela vida. Como não se emocionar quando, ao comentar uma foto da capital pernambucana postada no Dia do Nordeste no Facebook, recebemos a resposta "O Recife tem um lugar pra você no seu coração"? O nordestino é assim: recebe todos de braços abertos, adora mostrar ao mundo sua cultura, as belezas de sua terra e sua alegria de viver.

Quando se fala em Movimento Modernista, a primeira imagem que vem à cabeça é a Semana de Arte Modernano Teatro Municipal de São Paulo. Contudo, o principal objetivo de tal movimento, a busca das origens da cultura brasileira, a essência da brasilidade, para a partir daí se criar uma arte genuinamente nacional, levou os modernista aonde? A Minas, ao norte e ao nordeste. Foi nestes lugares que Mário de Andrade conheceu a literatura de cordel, adquiriu suas obras de arte (atualmente no IEB-USP, a coleção é composta por peças do barroco mineiro, artesanato indígena, carrancas nordestinas, dentre muitas outras coisas), estudou a fala do brasileiro, nossas tradições culturais, nossas lendas etc. Basta ler Macunaíma para ver o quanto de cultura nortista e nordestina está presente naquela obra, tão brasileira.

Há paulistas que culpam os nordestinos pelas favelas de SP, os chamam de vagabundos, analfabetos e tantas outras coisas que não vale a pena reproduzir aqui. Mas são esses mesmos nordestinos que constróem os prédios de SP. Eles são os porteiros, os pedreiros, os motoristas de ônibus, os operários, enfim, são eles que fazem SP. Estudo na Unicamp, considerada uma das melhores universidades do mundo, e tenho orgulho de dizer que diversos professores da minha universidade são nordestinos.

Muito mais há para ser dito sobre o nordeste, mas termino por aqui e deixo a você esta maravilha nordestina: http://www.youtube.com/watch?v=datA5JD5mTg

Feliz dia do nordeste! Manifeste-se!